Quando Lima reverberou Beatles



01 Setembro 2017

por Johnny McCartney / Litto Arbex

A América Latina também teve o seu Emmit Rodhes, o ex- líder dos grupos Palace Guard e Merry-Go-Round, e melhor “tradução” de Paul McCartney, nos anos setenta. Ele atende pelo nome de Carlos Guerrero, é peruano, e liderou o grupo We All Together, na primeira metade daquela mesma década. Com o grupo, lançou dois álbum antológicos, e uma série de singles, com covers para clássicos do próprio Macca e também de Badfinger. Se o uruguaio Los Shakers lembra os Beatles da primeira fase, We All Together poderia ser o Beatles em sua versão "anos setenta". Além de cantor e compositor, Carlos Guerrero também produziu os discos da banda.

We All Together integra o tripé básico do rock peruano, ao lado de Los Shains (de orientação beat e garagem) e Traffic Sound (o lado psicodélico do rock local), que também produziu belas bandas como Los Saicos, Los Belkings, Los Yorks, Telegraph Ave. e Laghonia, entre outros. Formado em 1971, além de Guerrero (vocais), o grupo contava com a participação de Carlos Salom (piano e órgão), Ernesto Samamé (baixo) e os irmãos Saul (guitarra e voz) e Manuel Cornejo (bateria) - todos egressos do recém-extinto grupo Laghonia. Willie Thorne (guitarra ritmo, piano e órgão) e Felix Varvande (teclados) também fizeram parte da banda. O grupo gravou apenas dois álbuns, batizados de We All Together e We All Together 2, lançados entre 1972 e 1974, com repercussão local.

No primeiro álbum – We All Together – destacam-se as canções Children, Young People e Dear Sally, todas de autoria da banda, e no melhor estilo McCartney/Beatles. Ao lado de suas próprias músicas, o grupo também entrega as influências em covers do principal ídolo – Tomorrow, Some People Never Know e Bluebird, além de Badfinger – Carry On Till Tomorrow. Em todo o álbum, desfilam canções totalmente beatlemaníacas, com belas harmonias vocais, pianos e cordas. Ainda hoje, é impressionante a qualidade dos vocais de Guerrero e sua turma, fiéis à escola pop sessentista.

No segundo álbum – We All Together 2 – um pouco mais distante das influências, e com maior peso autoral, o grupo equiparou-se aos congêneres gringos como os já citados Badfinger, Raspberries e outros seguidores de Lennon & McCartney. Nesse disco, o piano – por conta, talvez, da influência de Lennon – ganha mais peso no instrumental, sustentando as harmonias ainda mais refinadas de Guerrero e do grupo. Em faixas como Cloudy Night, o grupo leva ao extremo a paixão pela sonoridade dos rapazes de Liverpool, ao mesmo tempo em que introduz levadas latinas. Nesse disco, Band on The Run é o único cover.

Os dois álbuns foram relançados em formato digital nos anos noventa, por iniciativa do selo Lazarus Audio Products, de George Bonilla, um peruano radicado nos Estados Unidos. Ainda em catálogo, a obra de We All Together sintetiza um dos momentos mais importantes do rock peruano e latino-americano, particularmente pela qualidade autoral e vocal. As duas obras permanecem tão atuais quanto os melhores trabalhos do ídolo Paul McCartney nos anos setenta, e chamam a atenção de fãs de Beatles ou de boa música pop.
 





 






POSTADO EM: /Matéria