De Shakespeare a Elvis Presley (the real birth of R&R)



10 Julho 2018

por Fernando Rosa

O rock and roll tem em sua origem uma fantástica fusão de música negra e branca, apelo sexual juvenil, rebeldia comportamental e um espírito desafiador, mesmo involuntário, da ordem estabelecida. Assim, sob essas bases, é que nasceu o gênero musical que, desdobrando-se na “beatlemania” dez anos depois, promoveu a mais profunda revolução musical e comportamental da história do Século XX.

Nascido nos Estados Unidos do pós-guerra, deu voz à juventude até então sem expressão própria, além de engendrar um novo mercado consumidor não apenas de música, mas de toda sorte de produtos. Primeira geração a não precisar trabalhar, os jovens americanos foram premiados com a invenção da mesada que alimentou a venda de discos, novas tecnologias, publicações e comida, entre outros quinquilharias.

A sua história, apesar de contada milhares de vezes, ainda esconde mistérios, especialmente relacionados às suas fontes originais, a paternidade da expressão e primeiras gravações. Sem necessária ligação com a futura sonoridade “rock”, algumas músicas foram compostas e batizadas com o nome “Rock and Roll”, ou utilizaram a expressão, muito antes dos anos cinqüenta.



PARTE 1

De Shakespeare a Elvis Presley


“Ambos os verbos – rock e roll – foram incorporados à língua durante a Idade Média e logo começaram a ser usados como metáforas de sentimentos à flor da pele”, diz Nick Tosches, em seu livro “Criaturas Flamejantes”. Em um primeiro momento ligados às navegações – o movimento do navio sobre as ondas -, posteriormente os dois verbos ganharam conotações religiosas e, por fim, sexuais.

Entre os exemplos, segundo Tosches, estão os versos de Shakespeare, em “Vênus e Adônis”: “My throbbing heart shall rock thee day and night” (Meu coração pulsante te fará vibrar dia e noite), ou ainda no verso: “Oh venha, Johnny Bowker, venha me chacoalhar e balançar (rock and roll)”, presente em canção do mar do início do século XIX.

Um texto no site de Bill Halley corrobora essas informações, citando tanto o poema de Shakespeare, quanto fazendo referência às canções marítimas, em especial Johnny Bowker:

- The word "rock" had a long history in the English language as a metaphor for "to shake up, to disturb or to incite". Shakespeare used it in his play "Venus and Adonis" when he wrote "My throbbing heart shall rock thee day and night". The verb "Roll" was a medieval metaphor which meant "having sex". Writers for hundreds of years have used the phrases "They had a roll in the hay" or "I rolled her in the clover". In an old English sea chanty we can find the lyrics: "Oh do, me Johnny Bowker ... / Come Rock'n'Roll me over".

O hino “Rocked in the Cradle of the Deep”, escrito nos anos 1830’s por Emma Willard, com música de Joseph Philip Knight, trouxe para o Século XX o tema da navegação e a palavra rock agregada. A música foi gravada originalmente pelo Original Bison City Quartet antes de 1894, pelo Standard Quartette em 1895, por John W. Myers em 1901 (Victor) e 1902 (Columbia) e por Gus Reed em 1908, entre outros. Outra canção "rocker" também lembrada dessa época é "All coons look alike to me", com Frank Stanley, gravada em 1899.


O primeiro registro fonográfico das expressões “rocking” e “rolling”, no entanto, é o gospel “The Camp Meeting Jubillee” gravado pelo grupo Haydn Quartet, em 1904, com os versos "We've been rockin' an' rolling in your arms/ Rockin' and rolling in your arms/ Rockin' and rolling in your arms/ In the arms of Moses". A música ganhou várias versões desde então, especialmente a do grupo de spiritual Male Quartet, em 1916.

Em 1917, a Original Dixieland Jass Band grava “Tiger Rag”, um clássico do “dixieland” que trazia elementos de ritmo, percussão e dança utilizados posteriormente na construção do rock and roll. Em 2010, Jeff Beck, acompanhado da cantora Imelda May, regravou a música, cuja gravação original encontra-se na Livraria do Congresso dos EUA, em um tributo especial ao guitarrista Les Paul, que havia gravado a canção nos anos cinquenta.

Lançado originalmente em 1922, o blues “My Daddy Rocks Me (With One Steady Roll)” é uma espécie de matriz secreta do rock, e representante mais visível da vertente sexual na origem do futuro novo gênero. Nesse blues escrito por J. Berni Barbour, interpretado pela cantora Trixie Smith, pela primeira vez é também utilizada a expressão “around the clock” (resgatada depois em “Rock Around The Clock”, de Bill Halley). A música não apenas ganhou dezenas de versões,  mas inflenciou composições com a mesma temática.

Em 1925, Harold Ortli & Ohio State Collegians, um grupo de brancos, grava sua versão batizada “My Daddy Rocks Me”, de certa forma antecipando a fusão de música negra e branca patrocinada por Elvis Presley. Três décadas após, o primeiro single de Elvis pela Sun Records com as músicas “That’s All Right” e “Blue Moon Of Kentucky” deu forma definitiva a simbiose das duas culturas.

A música teve várias versões durante os anos vinte e trinta, a mais interessante com Tampa Red’s Hokum Jug Band, em 1929, tendo Frankie “Halk-Pint” Jaxon no vocal. “Half-Pint” (porque tinha apenas 1 metro e 52 centímetros) era um artista multimídia que, durante muito tempo ganhou a vida vestindo-se de mulher e imitando cantoras nos palcos do Harlem.

Nessa versão, “Half-Pint”, com voz afetada, talvez pela primeira vez na história da música (gravada, pelo menos) simula explícitos gemidos e orgasmos, como uma espécie de pré-“Je T’Aime”, do francês Serge Gainsbourg. A canção também ganhou versões “sipiritual“ com o Southern Quartet em 1924, “jazz” com o Charles Creath's Jazz-O-Maniacs, com vocal de Floyd Campbell, além de outra versão em 1929 com Jimmie Noone acompanhado pela cantora May Alix.

No terreno espiritual e religioso a expressão aparece ainda nos anos vinte, em músicas como “Rock, Church, Rock”, de Clara Smith, gravada em 1926. Outras canções também mantiveram a orientação espiritual da expressão viva durante os anos trinta, como “Rock My Soul” gravada por diversos grupos de spiritual, entre eles Golden Gate Quartet, em 1937. Esta última, uma espécie de proto-doo wop, que surge apenas nos anos cinquenta.

Em 1927, Uncle Dave Macon & His Fruit Jar Drinkers gravam “Rock-About My Saro Jane”, um dos primeiros registros fonográficos a utilizar – agora em terra, não mais no mar - a expressão “rock”, como uma metáfora sexual. Uncle Dave Macon disse ter ouvido a canção pela primeira vez na voz de estivadores negros que trabalhavam na hidrovia Cumberland River, no Sul dos Estados Unidos, em 1880.

Em 1927, Blind Lemon Jefferson grava “Matchbox Blues”, definindo uma estrutura rítmica e melódica, além de uma forma de cantar, que orientou a formatação do gênero nas décadas seguintes. O tema foi regravado por Carl Perkins nos anos cinqüenta, e pelos Beatles nos anos sessenta, entre dezenas de outros covers ao longo das décadas seguintes.

Lançada em 1929, “Kansas City Blues”, com Jim Jackson, um dos registros de blues mais vendidos da história, também cruzou as décadas inspirando versões e chegando até o DNA de “Rock Around The Clock”, de Bill Halley, nos anos cinqüenta. Sua linha melódica foi utilizada por Charlie Patton em “Going To Move To Alabama”, em 1929, e por Hank Williams em “Move It On Over”, em 1947, prima-irmã do mega-hit de Bill Halley.

No início dos anos trinta, o grupo Mississipi Sheiks aponta para o futuro do rock com uma série de blues originais e extremamente modernos para a sua época, que reverberam ao longo das décadas seguintes. “Sitting on the Top of the World” foi gravada pelos ingleses Cream nos anos sessenta e “The World In Going Wrong” por Bob Dylan nos anos noventa.

Ao mesmo tempo, nos anos vinte, o boogie woogie constitui-se como um gênero musical com influência na cultura musical americana, além de promover a ponte entre o Sul e Norte do país. Gestado desde o início do século, o boogie woogie agregou ao futuro rock and roll o “beat” - batida – registrado em temas como “Weary Blues”, com The Louisiana Five, gravado em 1920.

O tema “Chicago Stomps” com Jimmy Blythe, gravado em abril de 1924, é considerado o primeiro registro em disco de um solo de piano “boogie woogie”. O primeiro boogie-woogie a ter sucesso comercial foi “Pinetop's Boogie Woogie", com Pinetop Smith, gravado em 1928, seguido de "Honky Tonk Train Blues", com Meade Lux Lewis, lançado em 1930.

A música “Match Box Blues”, com Blind Lemon Jefferson, por outro lado, já projetava o futuro ao conter, segundo ele, um som de baixo sincopado, que ele apelidou de “Booga Rooga”. Como quase tudo na história do rock, Blind Lemon Jefferson inspirou-se em temas de piano ouvidos por ele e pelo parceiro Huddie “Lead Belly” Ledbetter na região do Texas.

Nos anos quarenta, gravações como “Swingin’ the Boogie” com Hadda Brooks Trio (1945) e “Down the Road Apiece” com Amos Milburn (1946), regravada pelos Rolling Stones, reforçaram a presença do gênero da “fórmula” do rock and roll. O boogie manteve-se como uma linha paralela ao rock, gerando grupos como Canned Heat, entre outros, nos anos sessenta.

Na década anterior, em 1931, Duke Ellington gravara “Rockin' In Rhythm”, um tema sofisticado, introduzindo o jazz na arquitetura do novo gênero em construção. Já em 1937, o grupo Golden Gate Quartet planta a semente para o futuro doo wop, nos anos cinqüenta, com o tema “Rock My Soul”, explorando as vozes dobradas e introduzindo outros recursos vocais.

Também nos anos trinta, definitivos para a construção do gênero, Robert Johnson grava “I'm A Steady Rolling Man” (1937), entre outros clássicos do blues, que o imortalizaram como um dos músicos mais importantes da história. A figura de Robert Johnson, com suas poucas canções gravadas, afirmaram definitivamente a influência da música negra no universo da música americana e, posteriormente, mundial.

Uma das primeiras músicas, em formato pop, a se chamar “Rock and Roll” foi gravada pelas Boswell Sisters, um trio vocal branco, em 1934. A música de autoria de Richard Whiting era trilha sonora do filme “Transatlantic Merry-Go-Round”, uma epopéia marítima. Da mesma época é o gospel “Good Lord (Run, Old Jeremiah)” que, em sua letra/reza falava em “I’ve gotta rock ...”, com Austin Coleman. 

O primeiro registro do que se chamaria rockabilly é “Rocking Rolling Mama”, com Buddy Jones, um cantor de country music, em gravação realizado em 1939. No mesmo ano, Roy Newman and His Boys regravam “Matchbox Blues”, espécie de linha evolutiva de “Jim Jackson's Kansas City Blues”, de Jim Jackson, um registro do ano de 1929.

Em 1938, The Light Crust Doughboys grava a música “Pussy, Pussy, Pussy” introduzindo o baixo "slap", depois marca registrada do rockabilly, inclusive no revival dos anos oitenta em bandas como Stray Cats. Em 1945, Eddy Arnold and his Tennessee Plowboys gravam “Cattle Call” influenciado pelo pioneiro baixo de Ramon DeArmon, dos Light Crust Doughboys.

No começo dos anos quarenta, a música branca também avançou rumo à linguagem do rock, por meio do hillbilly boogie, com destaque para artistas como Delmore Brothers, Red Foley, Teenessee Ernie Ford, Maddox Borthers e Arthur Smith. A junção cultural-musical também contou com músicos obscuros como Johnny Barfield que gravou o primeiro country boogie, “Boogie Woogie”, em 1939, segundo Nick Toshes em seu livro “Criaturas Flamejantes”.

Já a “primeira” gravação de ”rock and roll” propriamente dita é alvo de diversas teorias de historiadores. A mais citada é “Rocket 88”, de Ike Turner, lançada em 1951, sob a assinatura de Jackie Breston & His All Stars, que incluía o autor ao piano. Tratava-se de uma homenagem ao carro “Oldsmobilie Rocket 88” produzida, gravada e lançada por Sam Phillips, com distribuição nacional da Chess Records - que ainda inovou com a fuzz-guitar de Willie Kizart.

No entanto, existem registros anteriores, inclusive com o nome “Rock and Roll” e mais radicais na proximidade com a forma definitiva do futuro gênero musical. Em 1947, por exemplo, Manhattam Paul Bascomb lançou a obscura e rara “Rock and Roll”, uma das primeiras músicas a utilizar as expressões “rock” e “roll” juntas no título. No mesmo ano, Winnonie Harris grava “Good Rocking Tonight”, também sempre incluída nas listas de “primeiro rock” nas pesquisadores.

Originalmente gravada por Roy Brown no mesmo ano, a música ganhou “cover” de Harris, com um andamento mais acelerado e com um arranjo moderno, que aproximou o rhytm’n’blues do que seria o futuro rock and roll. “Good Rocking Tonight” foi regravada por Elvis Presley, na Sun Records, evidenciando a influência da música negra sobre ele.

Um ano depois, o pianista Scatman Crothers, acompanhado pelo saxofonista Wild Bill Moore, também gravou a sua “(I Want To) Rock and Roll”. Em 1949, outra música é batizada como nome de “Rock and Roll” ou “(We’re Gonna Rock This Morning) Rock and Roll”, com o baixista Doles Dickens Trio. Já “We’re Gonna Rock, We’re Gonna Roll” é gravada por Wild Bill Moore em 1948, e ganha cover de Cecil Gant, sob o pseudônimo de Gunther Lee Carr, em 1950.

Outra música também considerada entre as primeiras gravações de rock é “Rock This Joint”, com Jimmy Preston and His Prestonians, gravada em maio de 1949, na Filadélfia, depois regravada por Bill Halley & The Saddleman em 1952. A mesma música foi gravada em setembro do mesmo ano por Chris Powell and The Five Blue Flames, mas sem a mesma agressividade “rock” contida na versão original.

Ainda nos quarenta, Louis Jordan foi, sem dúvida, a principal “ponte” entre a música negra e a nova linguagem batizada posteriormente de rock and roll. Apenas como exemplo de sua importância, ele é citado por Chuck Berry como uma de suas principais influências, e seu guitarrista, Carl Hogan, é o “dono” do “riff” introdutório de “Johnny B Goode” (na música “Ain’t That Just Woman”, de 1946).

Nesse período, entre meados dos anos quarenta e início dos anos cinqüenta, conhecida como “Hoy Hoy Era”, destacaram-se orquestras como as de Cab Calloway, de Illinois Jacquet e de Joe Liggins, entre outras. A expressão “hoy hoy” era utilizada para definir aquele tipo de rhytm’n’blues, e constava de grande parte das letras das músicas da época.

Um dos maiores sucessos dessa época foi o tema “The Honeydripper”, com Joe Liggins, lançado em 1945, e primeiro lugar nas paradas por 18 semanas. Nos anos A música deu nome ao projeto paralelo de Robert Plant, com participação de Jimmy Page, Jeff Beck e Brian Setzer, entre outros, dedicado a regravar clássicos daquele momento, incluindo “Rockin’ At Midnight”, de Roy Brown.

Na época também ocorrem mudanças fundamentais na música, como a incorporação de acordes de jazz no blues com T-Bone Walker em “I Got A Break Baby”. Também a gravação do blues “Rollin’ And Tumblin” por Muddy Waters, em 1950, que influenciou gerações futuras. E ainda é dessa época o registro do boogie “The Fat Man” por Fats Domino, assim com os demais temas, apresentado como um “novo estilo”.

Naquele mesmo momento, em 1949, ocorreu a escalada de John Lee Hooker na parada de rhythm’n’blues com “Boogie Chillen”. A sonoridade de John Lee Hooker remetia à música da República do Mali, origem de grande parte dos escravos que foram levados para os Estados Unidos, e única região do planeta a utilizar a escala musical pentatônica, a mesma do blues.

Em 1947, é ainda lançada o bluegrass “Blue Moon Of Kentucky”, com Bill Monroe, que modernizou o gênero, sucesso nacional imediato. Um ano depois também é lançado "Guitar Boogie” com Arthur Smith &The Crackerjacks, que leva a guitarra pela primeira vez às paradas de sucesso. Em 1951, os Dominoes fazem de “Sixty Minute Man” o primeiro hit de rock and roll na parada de música pop americana.

Já adentrando os anos cinqüenta, e ao período do rock propriamente dito, a primeira gravação de rock and roll é creditada a Bill Halley & His Comets, com “Rock Around The Clock”. Gravada em 12 de abril de 1954, a música fundia o “country boogie” com o “jump blues” urbano de uma maneira menos sensual e agressiva do que o futuro rei do rock produziria na Sun Records e depois na RCA Victor.

Inicialmente sem grande repercussão, “Rock Around The Clock” acabou transformando-se em mega-hit um ano depois, devido a inclusão na trilha do filme “The Blackboard Jungle” (“Sementes de Violência”, no Brasil) – a música tocava na abertura, de fundo sonoro para os créditos. Em 1955, o single atingia a marca de dois milhões de cópias vendidas.

A história de “(We’re Gonna) Rock Around The Clock” sintetiza em parte o processo de construção do gênero, que incluiu em sua mistura o gospel, o blues, o “jump blues” dos anos 40, o country moderno e o pop. Além da já citada “Kansas City Blues”, de Jim Jackson, o DNA da música inclui o tema instrumental “Syncopated Clock”, de Leroy Anderson (1945), da qual a música de Halley seria uma espécie de variação roqueira.

Segundo o executivo da Decca e produtor de Halley, Milt Gabler, o sucesso da música se deve ao fato de ser uma “versão de um antigo blues chamado “My Daddy Rocks Me (With One Steady Roll)”, que ele ouviu quando trabalhava na gravadora, nos anos trinta, em novo registro de Trixie Smith, em 1938. Segundo Gabler, as palavras "rock and roll" foram retiradas desta canção. Em 1956, Gabler produziu um disco de May West, que contém versão "rock" para a música.

Halley, um cantor de country & western, também sonhava em fundir as músicas branca e negra, o que conseguiu, antes de gravar “Rock Around The Clock”, com a música “Rock This Joint”, acompanhado de seu primeiro grupo The Saddlemen. A versão de “Rock This Joint” foi parar nas mãos do DJ Alan Freed, de Cleveland, que utilizava a música para abrir seu programa de rádio - a letra falava em "rock, rock, rock everybody, roll, roll, roll, everybody".

Em 1953, também antes do estouro com “Rock Around The Clock”, Bill Halley gravou outro "pré-rock", a música “Crazy Man Crazy”. O single foi a primeira do gênero ainda não batizado de rock and roll a alcançar a parada nacional de sucessos nos Estados Unidos, vendendo mais de um milhão de cópias, um número surpreendente para a época.

Por trás do sucesso de “Rock Around The Clock” estavam as influências diretas assumidas de Bill Halley, as mesmas da maioria dos demais emergentes roqueiros da época. Além de Hank Williams, Halley também ouvia o “jump blues” de Lionel Hampton, Joe Liggins & His Honeydrippers, Illinois Jacquet & His All Stars e, especialmente de Louis Jordan & His Tympany Five.

Além das influências indiretas, a profunda identidade de Halley com a obra de Hank Williams fez com que a sua “Rock Around The Clock” ficasse muita parecida, para não dizer igual, à “Move It On Over”, do seu mestre. De autoria de Williams, gravada por ele, e lançada originalmente em 1947, “Move It On Over” tem o mesmo andamento do mega-hit de Bill Halley, que acentuou alguns compassos em sua versão.

Mas, o verdadeiro “marco zero” da história do rock e registro do "momento" da fusão definitiva entre as músicas negra e branca, é a gravação de “That’s All Right” e de “Blue Moon Of Kentucky”, as duas com Elvis Presley. Enquanto Halley engendrou sua colagem com base em versões mais urbanas, Elvis foi mais fundo, fundindo o blues tradicional e o bluegrass, à sua maneira particular.

Gravadas em 5 de julho de 1954, nos estúdios da Sun Records, as músicas selaram a união do “hillbilly” e do “blues”, que definiu o “rockabilly”. “That’s All Right”, original de Arthur “Big Boy” Crudup, havia sido lançado em 1946, enquanto “Blue Moon of Kentucky”, de Bill Monroe, lançado um ano após, já era um clássico do bluegrass. O lançamento do single com as duas canções é o marco zero do rock and roll moderno.

Segundo reza a lenda, acompanhado de Bill Black (baixista) e Scott Moore (guitarrista), Elvis deveria gravar três canções previamente selecionadas, entre elas “Blue Moon of Kentucky”. Na hora, no entanto, ele começou a cantar uma quarta música, o blues “That’s All Right”, com uma levada acelerada. Sem entender o que estava acontecendo, Black e Moore seguem o ritmo, levando a música até o fim.

Percebendo que poderia estar diante do "branco que cantasse como um negro", o esperto Sam Phillips, dono da Sun Records, pede para que toquem novamente "aquela loucura". Naquele momento, Phillips pressentiu que estava diante do "branco que cantasse como um negro", desejo que não se cansava de repetir à sua secretária Marion Keisker.

O acetato com as duas músicas, “That's All Right” e “Blue Moon of Kentucky”, também gravada à maneira de Elvis Presley, ganharam às ruas no dia 10 de julho, quando o DJ Dewey Phillips (do programa “Red Hot and Blue”, que apresentava música negra, desde 1950) tocou o compacto em sua rádio, na cidade de Memphis, cidade natal do músico.

No mesmo dia, diante da surpreendente receptividade, e com a impressão geral de que se tratava de um negro, Phillips leva Elvis até a rádio, onde ele, mesmo sem saber, acaba concedendo a primeira entrevista de sua carreira. No dia 19 do mesmo mês, com pedido antecipado de sete mil cópias, o disco é lançado pela recém-criada Sun Records, de Sam Phillips. O selo havia sido inaugurado em março de 1952.

Além da radicalidade musical, Elvis Presley levava extrema vantagem em relação a Bill Halley nos quesitos juventude e sexualidade. Halley já estava com cerca de trinta anos, enquanto Elvis, nascido em 8 de janeiro de 1935, não tinha ainda vinte anos quando entrou pela primeira vez na Sun Records.

Um ano e pouco depois, já contratado pela RCA Victor, e com acesso a programas de TV, mesmo que censurados, Elvis Presley acentuou a presença da dança à sua “performance”, enlouquecendo e conquistando a juventude de seu país e, em seguida, do mundo inteiro, ansiosa por libertar-se da pressão política, social e, mesmo, física, do pós-guerra.

Talvez tão importante quanto Sam Phillips e sua Sun Records, o DJ Alan Freed é outro personagem fundamental no registro dos primeiros passos do rock and roll. Em 21 de março de 1952, ele estreou o espetáculo “Moondog Show”, em Cleveland (Ohio, EUA), onde também tinha um programa de rádio.

As festas de Freed, depois rebatizadas de “The Moon Dog House Rock and Roll Party”, que se espalharam pelo país, reuniam brancos e negros no palco e na pista, desafiando a ira dos conservadores e racistas. Se não criou a expressão, com o filme e a música título “Rock, Rock, Rock”, gravada em 3 de julho de 1956, com Jimmy Cavello & His House Rockers, Freed terminou por afirmar a expressão "rock and roll".

PARTE 2

A primeira ascensão e queda

Em 10 de janeiro de 1956, Elvis Presley gravou o single "Heartbreak Hotel" e "I Want You, I Need You" para a RCA Victor. Foi o primeiro dos cinco mega hits nacionais que ele lançou naquele ano por sua nova gravadora. Na sua onda, surgiram Jerry Lee Lewis, Buddy Holly, Gene Vincent, Eddie Cochran e milhares de outros ídolos.

Na primeira fase, entre 1953 e 1955, tinha prevalecido o rock and roll de origem negra de Chuck Berry, Little Richard, Fats Domino e, mesmo Bill Halley. Com o branquelo de Memphis e sua explosiva mistura de blues e country, o rock experimentava o seu ‘big bang’, em todos os sentidos. O primeiro rei do rock e seus parceiros chegavam ao grande público no momento certo e, agora, apresentados, especialmente Elvis, ao gosto da nova clientela.

Mas, assim como o fenômeno físico, o rock and roll em sua forma original durou o tempo de sua explosão, produzindo mudanças sócio-culturais profundas e duradouras e provocando a ira dos conservadores. Um tempo de exatos 26 meses que se passaram entre o primeiro single de Elvis na RCA e o seu alistamento no Exército – ele serviu de motorista na base americana na Alemanha, com direito a farda e cabelo "reco".

Ou um período um pouco mais longo, se considerarmos o dia em que o avião Breechcraft Bonanza de quatro lugares caiu, depois de decolar do aeroporto de Mason City (Iowa, nos Estados Unidos), em 3 de fevereiro de 1958, matando Buddy Holly, Richie Valens e Big Bopper. Um episódio que, para a mitologia da música pop, por conta da música "American Pie", com Don McLean, ficou conhecido como “o dia em que o rock morreu”.

Nesse período, Elvis Presley confirmou sua supremacia, não chegando a ser maior do que Jesus Cristo - com diria John Lennon mais tarde em relação aos Beatles - mas ameaçando seriamente o prestigio do Tio Sam. Em 1956, ele apareceu 12 vezes em rede nacional de televisão, mesmo que filmado apenas da cintura para cima – a censura se devia a sua dança considerada exageradamente sensual.

Elvis vinha da Sun Records, onde lançara o single "That’s All Right" e "Blue Moon Of Kentucky", espécie de marco zero do rock. Mais esperta do que a Atlantic e a Capitol, a RCA Victor pagou 35 mil dólares pelo seu passe, equivalente ao último ano de contrato com a Sun Records.

Em sua nova gravadora, ele teve o que Sam Philips e sua pequena Sun Records não podia lhe dar. Decidida a levar Elvis para um mundo maior que o universo adolescente do rock and roll, a RCA apostou em uma superprodução, comandada por Chet Atkins, que incluía um time de músicos de estúdio, onde se destacavam o grupo vocal The Jordanaires e o pianista Floyd Cramer.

Foi um período de ouro para a indústria do disco, do cinema e também para as rádios e tudo o mais que se desenvolveu em torno do novo gênero musical. Com o rock and roll, a juventude passou a existir não apenas socialmente, mas também como um novo mercado de consumo, ávida por novidades.

Pela primeira na história da sociedade americana, os jovens de classe média não precisavam trabalhar para ajudar os pais e, mais, a instituição da “mesada” ganhava força. A juventude americana, inicialmente, e, em seguida a de todo o mundo, passava a ter não apenas sua própria música, mas também novas maneiras de se comunicar, se vestir e se alimentar. Os novos hábitos podiam ser perigosos, mas faziam tilintar a máquina registradora das gravadoras, magazines e 'fast foods'.

Esta mudança, no entanto, talvez tenha sido mais ameaçadora e radical no terreno da produção musical nos Estados Unidos. A entrada dos jovens roqueiros em cena desmontou a tradicional linha de produção musical até então estabelecida, na base de cantores de destaque e compositores e músicos de estúdio contratados.

Com o rock and roll, exceto Elvis Presley, os “cantores” e intérpretes eram, em sua maioria, também compositores de suas músicas e tinhas suas próprias bandas. Isso dava os jovens músicos controle total sobre suas obras e carreiras, ao mesmo tempo em que esvaziava o poder das grandes gravadoras na definição do mercado. Além do mais, a maioria dos novos roqueiros eram negros, excêntricos, libidinosos ou rebeldes, o que também contrariava os padrões artísticos vigentes.

Não demorou muito para o rock and roll em sua forma mais original e radical entrar em rota de colisão com o falso moralismo político, religioso e sexual. Com o macarthismo, naquele momento, em seu ápice de histeria persecutória, o rock and roll não seria tratado de forma diferente do que o foram a literatura, o cinema e, também, os quadrinhos, embora isso ainda não faça parte da história oficial.

Mais do que essas duas formas de expressão cultural, o rock and roll, embora sem um discurso político direto, subvertia costumes tradicionais e, principalmente, abria as portas da insubmissão, da rebeldia. Era difícil acusar os jovens roqueiros de comunistas, como se fazia com jornalistas, escritores, cineastas e atores, mas se podia atacá-los em outras frentes, especialmente no terreno moral e sexual.

Uma situação tão esdrúxula que nem os quadrinhos escaparam, provavelmente também pela sua capacidade de comunicação com a juventude, similar a nova linguagem direta do nascente rock and roll. Autor do estudo Seduction of the Innocent, o psiquiatra Fredric Wertham deu o tom da paranóia que levou a criação de um manual de censura aos quadrinhos, batizado de Código de Ética, voltado contra as revistas e seus autores, acusados de promoverem a perversão da juventude americana.

Nada fugiu à censura, desde as histórias de terror, até as de ficção científica, suspense e, mesmo, de super heróis clássicos. Nesse contexto, entre ataques e contra-ataques, populariza-se a revista Mad, criada em 1952 por Harvey Kurtzmann, que introduz com sucesso em suas páginas o humor e, especialmente, a contestação, por meio da sátira aos valores tradicionais e, particularmente, ao Código e seus autores.

Em resumo, naquele momento, era preciso preservar o mercado e ampliar seus gordos lucros, mas isso exigia “limpar” o rock and roll, vestí-lo para a sala de estar da classe média americana. Nesse período, então, a pressão do governo, das gravadoras e das lideranças políticas e religiosas se abateu com todo seu poder sobre os jovens músicos.

No final dos anos cinqüenta, quem não havia sucumbido frente a ação direta dessas instituições, acabou vítima de trágicos episódios, também resultado da intensidade daquele momento. Os verdadeiros e revolucionários artistas tinham sido afastados, cooptados, marginalizados, presos ou estavam mortos. Em seu lugar, uma nova safra de cantores sarados, como Paul Anka, Neil Sedaka e tantos outros, ganhava as telas das televisões.

O primeiro a pagar o preço da transgressão foi o próprio Elvis Presley, já submetido a lógica empresarial de Tom Parker, um ex-vendedor ambulante de circo e empresário de artistas de country music. Mesmo correndo o risco do afastamento da cena musical, o esperto Parker sacou que a imagem de bom moço e, mais do que isso, de “patriota”, poderia ser a porta de entrada de Elvis para o mundo adulto.

Não deu outra, e, na onda da expansão imperial dos Estados Unidos, a imagem do Elvis de farda, estabeleceu-se em todo porta-retrato de meninas adolescentes espalhadas pelo mundo inteiro. Fora do quartel e ainda mais rico, Elvis trocou definitivamente a agressividade original por melosas baladas como "It’s Now or Never" e "Are You Lonesome Tonight?", que o consagraram definitivamente e fixaram sua imagem mais popular.

Herói da primeira fase do rock and roll, do negro Chuck Berry foi cobrado um preço mais alto, que resultou em sua prisão. Berry foi acusado de violar a Lei Mann, que proibia o transporte de menores entre os Estados americanos, por ter trazido uma mulher de outro estado para o seu clube. Segundo o músico, a mulher tinha 21 anos, mas a Lei sustentou sua menoridade e, além disso, agregou a acusação a prática de prostituição.

O resultado desse processo, que se arrastou por mais de dois anos, foi que o autor de Johnny B. Goode e dezenas de outros clássicos do rock acabou condenado e preso, em 1962. Nesse meio tempo, a sua carreira já tinha sido destruída por conta do escândalo e da repercussão na mídia e no meio musical.

Outra vítima da pressão da mídia foi Jerry Lee Lewis, espécie de sucessor de Elvis Presley na Sun Records de Sam Phillips. Ao casar secretamente com sua prima Myra Brown, de 14 anos, Lewis deu aos conservadores o argumento que faltava para sustentar o ataque aos jovens roqueiros. Em manchetes escandalosas, os jornais britânicos e americanos trataram o caso como abuso de menores.

Pesava contra ele o fato de ser mais velho e já ter um histórico de três casamentos, sendo que o último ainda pendente do divórcio legal. Talvez o mais rebelde dos roqueiros brancos, The Killer, como ficou conhecido, viu sua carreira arruinar-se da noite para o dia. Em junho de 1958, antes de começar a vagar pelos bares mais obscuros dos Estados Unidos, ele emplacou seu último sucesso, a música "High School Confidential".

Também já fora de combate em 1958, Buddy Holly, pode ser considerado a primeira e mais importante vítima da superexposição a que foram submetidos os jovens roqueiros na gênese do rock and roll. Do interesse dos artistas, evidentemente, mas principalmente dos empresários famintos pelo lucro imediato, as turnês reunindo vários grupos e intérpretes cortavam o país e duravam meses, com shows praticamente diários.

É nesse contexto que o autor de "Peggy Sue", diante da possibilidade de perder um show, por conta de seu ônibus quebrado, decide correr o risco de embarcar em um avião, mesmo em condições adversas. A conseqüência da aposta foi a morte em trágico acidente provocado por um rigorosa nevasca, minutos após a decolagem. A curta carreira de cerca de dois anos estava encerrada e, com ela, para muita gente, também o rock and roll em sua forma mais criativa e juvenil.

Um ano antes, foi Little Richard que, diante da “visão” de um acidente aéreo abandonou a carreira, apegando-se a religião. Segundo conta a lenda, ele teria sonhado com um motor de avião pegando fogo, que interpretou como um sinal de Deus. Diante do aviso divino, Little Richard saiu de cena, deixando aliviados os moralistas incomodados com sua música excitante e suas agressivas apresentações ao vivo.

Negro, espalhafatoso e abusado em suas letras sexualmente incorretas, Little Richard talvez tenha sido a mais incomoda pedra no sapato do conservadorismo. No entanto, suas músicas, aliviados de seu caráter sexual, transformaram-se em grandes sucessos na versão dos novos artistas brancos.

Talvez ninguém mais do que o DJ Alan Freed personifique a pressão e a perseguição desenvolvida contra as pequenas rádios que alavancaram o rock and roll. Freed era branco, mas transformara-se no maior defensor e propagandista da música negra, no caso o rock and roll da primeira fase do gênero. Perspicaz, ele organizou grandes festas coletivas, as The Moondog House Rock and Roll Party, onde reunia brancos e negros, no palco e na platéia.

Em tempos de racismo exacerbado, e de início da luta pelos direitos civis, a postura de Freed foi um desafio tão importante quanto Jimi Hendrix em Woodstock executando o hino americano sobreposto por sons da guerra contra o Vietnã. Freed foi o principal alvo o conhecido Escândalo Payolla, acusado de receber jabá para tocar rock and roll, o que o levou a miséria e a morte prematura, em 1965.

A década de sessenta estava começando e o mundo do rock and roll clássico encontrava-se aparentemente domesticado. Os primeiros heróis estavam, em sua maioria, fora de cena, afastados de seus públicos. Os últimos a caírem foram Eddie Cochran e Gene Vincent, em 1960, durante acidente que matou o primeiro e feriu gravemente o segundo.

Mas quem pensou que, com isso, o rock estava sob controle, levou um certo tempo a compreender a nova explosão dos Beatles, Rolling Stones e outros grupos ingleses. E mais do que isso, não deve ter entendido a presença em seus primeiros discos de tantas músicas daqueles jovens banidos há tão pouco tempo.

Os primeiros discos dos Beatles e dos Rolling Stones, particularmente, traziam clássicos dos seus ídolos confessos, atraindo novamente a atenção para os seus nomes. Aos poucos, a partir de meados dos anos sessenta, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Little Richard e muitos outros retornaram ao disco e aos palcos, afirmando definitivamente a sua importância para a história do rock. 

 






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