1950-1970: os primeiros 'guitarristas de ouro' do rock brasileiro



13 Julho 2019

por Fernando Rosa

Em 1957, em São Paulo, Betinho e Seu Conjunto lançava Enrolando o Rock, a primeira gravação do gênero feita no Brasil que incluía a guitarra elétrica em sua execução. O paulista Alberto Borges de Barros, Betinho, filho de Josué de Barros, o descobridor de Carmem Miranda, entrava para a história como o responsável pelo primeiro rock nacional com guitarra - no caso uma Fender Stratocaster, que substituía a Gibson utilizada por ele no fox Neurastênico, em 1954. Ainda no final dos anos cinqüenta, diversos guitarristas seguiram o caminho aberto por Betinho, afirmando a presença da guitarra na história do rock nacional, especialmente a partir da fase instrumental, destacando-se Dudu, do grupo The Avalons.

Na virada da década, surgiram Alladin (The Jordans), Gato (The Jet Blacks) e Renato Barros (Renato e Seus Blue Caps), que brilharam na fase instrumental, influenciados pelos grupos The Shadows e The Ventures, e depois aderiram à Jovem Guarda. O paulista Romeu Mantovani Sobrinho, Alladin, destacou-se com o cover de Blue Star que, sustentada por seus solos, ficou oito meses em primeiro lugar nas paradas, além de outros clássicos como FBI, Cadillac e Tema de Lara. José Provetti, o Gato, também paulista, à frente do The Jet Blacks, construiu a fama de grande guitarrista em covers como Apache, Theme For Young Lovers e Suzie Q, passando depois a integrar a clássica formação do RC7, grupo que acompanhava Roberto Carlos.

Já a transição do rock instrumental para a "era Beatles", em meados dos anos sessenta, teve em Euclides, que integrava o grupo Luizinho e Seus Dinamites, e depois o The Pop's, o seu grande guitarrista, embora sem o devido e merecido reconhecimento. Tocando guitarras fabricadas pelo próprio Luizinho, em meados da década de sessenta, Euclides transformou-se em um dos mais brilhantes guitarristas da história do rock brasileiro. Seus solos, instigados pelos "alimenta, Euclides" do líder Luizinho, podem ser ouvidos no álbum Choque que Queima, um dos clássicos do rock brasileiro, relançado em vinil pelo selo Bruno Discos, de São Paulo. Ao lado de Euclides no The Pop's, e depois nos Populares, Júlio Cesar também conquistou seu espaço na galeria dos grandes guitarristas.

O líder do grupo Renato e Seus Blue Caps, Renato Barros, por sua vez, fez de sua discreta e, por vezes, barulhenta fuzz guitar, uma das bases fundamentais da sonoridade Jovem Guarda, especialmente a partir do disco Viva a Juventude!', e no acompanhamento de outros intérpretes. Ainda na mesma linha pop, está o guitarrista Risonho, membro dos grupos The Clevers, e depois dos Incríveis, que também marcou sua presença pela qualidade técnica e discrição, em músicas como O Milionário. O mesmo ocorrendo com outros instrumentistas, com destaque para Bogô, dos Beatniks, que deixou sua a marca de sua guitarra em fantásticos compactos contendo músicas como Fire (Jimi Hendrix), Gloria (Them) e Aligattor Hat, onde produz alucinados riffs sob o tema da Light.

Com a chegada da psicodelia, a guitarra explodiu como símbolo da geração, passando a provocar a ira dos conservadores, que acusavam o instrumento de estranho à nossa cultura. Os festivais musicais encarregaram-se de expôr o conflito, deixando históricos registros de duelos entre guitarras e vaias do público, do que é exemplo a apresentação dos Mutantes, acompanhando Caetano Veloso, em É Proibido Proibir. O clima de desafio pode ser visto na foto publicada pela revista Manchete, feita durante um dos festivais da Record, no final dos anos sessenta, onde Arnaldo, Serginho e Gilberto Gil simulam portar, ao invés de guitarras, metralhadoras.

Empunhando sua famosa "guitarra de ouro", fabricada especialmente por seu outro irmão, Cláudio (exímio luthier de guitarras), Sérgio Dias Baptista, dos Mutantes, integrou as influências do rock com a sonoridade tropicalista, costurando sua mistura com apurada técnica instrumental. Ousado e criativo no uso do instrumento, Serginho afirmou-se como o maior guitarrista da história do rock brasileiro, conquistando o respeito de músicos e da crítica internacional depois do fim dos Mutantes. Seu trabalho de guitarra atingiu a genialidade em clássicos como Batmacumba, Mágica, Jogo de Calçada, Lady Madona (cover dos Beatles) e Saravá, entre outras músicas.

Além de Sérgio Dias, a segunda metade dos anos sessenta ainda revelou Tuca (Carlos Eduardo Aun, paulista), que tocou com Os Baobás, e o gaúcho Mimi Lessa, membro do grupo Liverpool. Mimi, que também integrou o Bixo da Seda, produziu no disco Por Favor Sucesso, um dos mais radicais trabalhos de guitarra daquela época. Tuca, que iniciou tocando música instrumental com Os Lunáticos, também participou da gravação do único disco do grupo The Galaxies, que traz um excelente registro do som de garagem. Outros que destacaram-se nesse período foram Rafael Vilardi, com passagem pelos Thunders, Wooden Faces, O'Seis, Baobás, Suely & Os Kantikus e Os Tremendões, e Aroldo Santorosa, que brilhou à frente do Som Beat, o "Yardbirds paulistano", e depois integrou os grupos Os Incríveis e Casa das Máquinas.

A tropicália, por sua vez, produziu Lanny Gordin, seu maior instrumentista, que fez passar pelas "cordas de ácido" de sua guitarra as idéias sonoras que revolucionaram a música brasileira. Nos grupos Suely e Os Kantikus ou Brazilian Octopus, onde começou, ou junto de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Jards Macalé, Lanny deixou sua marca inconfundível de competência instrumental e execução tensa e apaixonada. Na mesma época, também Pepeu Gomes, que iniciou tocando baixo com Os Minos, ainda na Jovem Guarda, antecipava, à frente do grupo Os Leif's, a mistura de Jacob Bandolim e Jimi Hendrix, que definiria o som de sua guitarra nos futuros grupos A Cor do Som/Novos Baianos, já nos anos setenta. A guitarra soul-fuzz de Luiz Wagner (Os Brasas), em discos de Vanuza e Os Caçulas, entre outros, também fez sua história, ainda pouco reconhecida.

A década de setenta também contou com uma safra de excelentes guitarristas, em todos os desdobramentos que o rock nacional assumiu naquele tempo, desde o rock tradicional, produzido por grupos com o Made in Brazil, e seu excelente guitarrista Celso Vechionne, até o rock rural de Ruy Maurity Trio. Além de maior domínio do instrumento, adquirido com a experiência acumuladas pelos antecessores, os guitarristas daquela década passaram a contar com mais acesso às novas tecnologias existentes, o que resultou em maior apuro técnico. Também os equipamentos de palco, amplificadores, captadores e outros aparelhos afins, contribuiram decisivamente para valorizar a guitarra e seu som.

No início dos anos setenta, incorporando o hard rock e o progressivo, Pedro Lima, à frente do grupo A Bolha, realizou um exemplar trabalho de guitarra, especialmente no primeiro compacto e no primeiro álbum do grupo, Um Passo à Frente. Na mesma direção, Gabriel O’Meara, guitarrista do grupo O Peso, e Celso Vecchione, do Made in Brazil, foram responsáveis pelos melhores momentos do rock pesado na primeira metade dos anos setenta. Ainda, fiel ao rock e ao blues tradicional, o irlandês/brasileiro, John Flavin, foi um dos grandes guitarristas da década, seja à frente do grupo Arnaldo & Patrulha do Espaço, ao vivo e em estúdio, somente com a Patrulha do Espaço, ou acompanhando o Secos & Molhados.

O rock progressivo, por sua vez, deixou lendas vivas, mas pouco conhecidas, da guitarra nacional, como Paul de Castro, que integrava o grupo carioca Veludo, e depois tocou com o new-wave Herva Doce, já nos anos oitenta. Um pouco antes, por volta de 1971, o guitarrista Daniel demonstrava sua grande habilidade técnica no disco Não Fale com Paredes, do grupo Módulo 1000, um clássico do psico-progressivo brasileiro. E, ainda, é nesta fase que surgem outros guitarristas, especialmente Luiz Maurício, depois Lulu Santos, que roubava os shows nos palcos do Rio de Janeiro com seus grupos Albatroz, Veludo Elétrico e, ainda, Vímana, ao lado de Lobão, Ritchie e Fernando Gama.

Por fim, o guitarrista Sérgio Hinds, do grupo O Terço, deu ao instrumento uma nova dimensão, fazendo a ponte entre o rock e a música popular brasileira, incorporando definitivamente a guitarra à cultura musical nacional. Forjada nos bailes e programas de rádio e televisão com os Hot Dogs, a guitarra de Hinds abriu-se para as influências do rock progressivo e para o som erudito, fundindo-os com a sonoridade acústica/rural brasileira, produzindo um resultado inovador. O exemplar trabalho de Hinds pode ser ouvido, de forma especial, nos discos Criaturas da Noite, Casa Encantada e Mudança de Tempo, ou ainda nos primeiros compactos do grupo, gravados no início dos anos setenta.

Afirmando definitivamente a presença da guitarra na vida musical brasileira, guitarristas como Rick Ferreira, acompanhando Raul Seixas, outros como Luiz Carlini (Tutti Frutti), Paulo Rafael e Ivson Wanderlei (Ivinho) - os dois do Ave Sangria, Robertinho de Recife e Armandinho romperam com os preconceitos ainda existentes. A partir deles, a guitarra passou a ser ouvida além dos limites do rock, em trabalhos ligados a outros gêneros como frevo, baião, samba e até mesmo sertanejo, com a mais absoluta naturalidade. Com a mesma paixão dos primeiros acordes de Enrolando o Rock, instrumentistas como Edgar Scandurra (Ira!), Celso Blues Boy, Herbert Viana (Paralamas do Sucesso), ou mais recentemente, Carlo Pianta, do grupo gaúcho Graforréia Xilarmônica, ampliaram ainda mais as possibilidades da guitarra a serviço da música jovem brasileira. 

 






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