Introdução à história do rock latino-americano



18 Dezembro 2020

por Fernando Rosa

A história do rock sulamericano não difere muito da registrada nas demais partes do mundo, apesar de ter suas particularidades e curiosidades, a começar pela suas primeiras e principais influências. A primeira delas deve-se ao fato da totalidade de seus países, exceto o Brasil, falar espanhol, o que fez com o rock mexicano tivesse um peso inicial maior em sua formação.

Outras diferenças estão no campo social e político, especialmente, por conta das sucessivas ditaduras e golpes militares que se abateram sobre o continente sul-americano nas décadas de sessenta e setenta, com reflexos sobre as manifestações culturais em geral e sobre o rock em particular, resultando em repressão, censura e, mesmo, perseguição aos músicos.

Nascido nos Estados Unidos, o rock dos anos cinqüenta foi “traduzido” do outro lado da fronteira, por grupos como Los Teens Tops, Los Locos del Ritmo, Los Holigans e Los Ovnis, entre outros. O mais importante e influente deles foi Los Teen Tops, criado em 1959, e que manteve-se na ativa até 1962, gravando principalmente versões em espanhol de clássicos do rock and roll tradicional.

Antes disco, a também mexicana Gloria Rios gravou El Relojito, em 1956, enquanto no Peru, Los Millonarios del Jazz lançavam Rock With Us (Rock'n'Roll) um ano depois. No Brasil, Nora Ney, antes ainda, em 1955, também fez seu cover para Rock Around The Clock, considerado o primeiro rock gravado no país. Ainda entre os pionerisos está o argentino Billy Cafaro, com Marcianita. Já no Chile, Peter Rock imitava Elvis Presley país afora. E, ainda, o grupo cubano Los Llopis, que migrou para Espanha no final dos anos cinqüenta.

A história o rock argentino é uma das mais interessantes de todos os países da América Latina, especialmente pelo fato de afirmar-se, desde o início, com formato musical próprio e letras em espanhol, desenvolvido especialmente pelos grupos Los Gatos (antes Los Gatos Salvajes), Manal e Almendra – uma espécie de pilar estrutural do rock argentino.

Apesar de Mr. Roll Y Sus Rockers e Billy Cafaro, entre outros, terem introduzido o novo gênero musical no país ainda nos anos cinqüenta, as primeiras manifestações gravadas com características sessentistas só ocorreram em 1965, com o lançamento de Los Gatos Salvajes, com os próprios, de Liverpool At B.A., com The Seasons, e, ainda, um ano depois, de Rebelde/No finjás más, compacto com o grupo Los Beatniks.

A partir de então, em novos compactos, em shows de televisão e, especialmente, a partir da casa de espetáculos La Cueva, antes apenas dedicada ao jazz, os grupos de música beat foram conquistando espaço, até afirmar-se definitivamente com o lançamento do primeiro LP de Los Gatos, liderado por Litto Nebia, Los Gatos, em 1967, um dos clássicos da discografia roqueira latina.

Depois, em 1968, vieram Manal, na linha dos "power trio" de blues, também oriundo dos palcos da La Cueva, que gravou seu primeiro LP homônimo somente em 1970, Almendra, banda liderada por Luiz Alberto Spinetta, com sua música refinada, arranjos vocais elaborados e poética sensível e criativa, e, ainda, Vox Dei, autor do álbum La Biblia, clássico do som psicodélico/progressivo mundial.

Em 1969, é criado o selo Mandioca Underground, que lança um primeiro LP reunindo vários grupos e intérpretes, fortalecendo a divulgação mais ampla e dirigida da produção roqueira local, antes dificultada pelas pressões e preconceitos das grandes gravadoras, avessas ao experimentalismo dos novos grupos.

Além dos grupos já citados, outras bandas e intérpretes destacaram-se nos anos sessenta e início dos setenta, dentre eles Arco Iris, La Confradía de La Flor Solar, Billy Bond Y La Pesada Del Rock and Roll (que depois veio para o Brasil), Ramsés VII (Tanguito), Alma Y Vida, o ex-Beatniks Moris, El Reloj, Sacramento e Ricardo Soulé.

A história do rock uruguaio dos anos sessenta, por sua vez, está diretamente ligada ao grupo Los Shakers, dos irmãos Hugo (que, no Brasil, tocou com Tom Jobim e Milton Nascimento) e Osvaldo Fattoruso, que foi, ao lado do australiano Easybeats, um dos melhores representantes do estilo Beatles de toda a geração.

Nascido em 1964, o grupo contribuiu decisivamente para a afirmação de uma cena local, bem como para o desenvolvimento do rock em toda a América Latina. Com o single Break It All)/More’, de Los Shakers, o rock uruguaio apontou um caminho de qualidade, criatividade e inventividade, além da mera cópia existente na maioria dos países.

Além dos Shakers, o grupo Los Mockers também destacou-se na história do rock uruguaio dos anos sessenta, cantando em inglês, e fazendo o gênero Rolling Stones, com composições próprias e alguns covers, com destaque para Paint it Black. Seu único disco, com alguns singles de bônus-track foi relançado em CD pelo selo americano Get Hip.

O rock uruguaio destacou-se, ainda, pela qualidade de seus grupos da fase psicodélica, que misturando elementos de hard rock e progressivo, produziu grupos como Genesis, Psiglo, Opus Alfa, Dias de Blues, Tótem, El Kinto e El Sindykato, autores de discos clássicos que conquistaram o reconhecimento mundial, alguns com reedição em CD.

Alguns grupos, especialmente Tótem, liderado por Rubén Rada - em atividade até hoje, produziram uma fantástica mistura de ritmos regionais, principalmente o camdombe, de origem negra, jazz e rock à la Carlos Santana, com um resultado sonoro ainda atual e que, posteriormente, serviu de exemplo para novos mix sonoros nos demais países sulamericanos.

Outros grupos e intérpretes que integraram a cena do rock uruguaio foram Los Bulldogs, liderados pelo cantor Kano, Los Delfines, Los Killers, Los Moonlights, Hojas e Dino, que deixaram vários lps e compactos gravados entre 1967 e 1973, ano em que o golpe militar interrompeu a carreira da maioria dos grupos, afastando grande parte dos músicos do país.

O rock uruguaio, entre outras coisas, também deu à discografia mundial do rock um de seus clássicos, o álbum La Conferência Secreta del Toto's Bar, de Los Shakers, espécie de Sgt. Pepper's latino americano, que figura nas listas dos grandes discos dos anos sessenta. Gravado em 1967, o disco só foi lançado um ano após, quando o grupo já havia encerrado sua carreira.

O rock chileno dos anos sessenta, dividido surgiu dividido entre entre la Nueva Ola e o rock tradicional, como em outros países, teve como seus expoentes os grupos Los Mac's (que gravou uma espécie de Their Satanic Majesties Request regional), Los Jockers, Los Vidrios Quebrados, Los High Bass/Los Jaivas e ainda, os ultrapsicodélicos Aguaturbia, que formaram a base do rock nacional.

A banda Los Jockers, com seu primeiro disco En La Onda de Los Jockers, inteiramente de covers radicais, que inclui Wild Thing (Troggs), Satisfaction (Rolling Stones) e Little Girl (Them), gravado em 1966, junto com Los Vidrios Quebrados e seu lp Fictions, de 1967, e, ainda, Los Aparittions foram os principais responsáveis pelo surgimento da cena roqueira no país.

Na Nueva Ola, uma espécie de Jovem Guarda local, com orientação mais pop, destacaram-se intérpretes e grupos como Luis Dimas, Danny Chilean, Alan Y Sus Bates (que regravou O Leão Está Solto Nas Ruas/Un Leon Escapo De Su Jaula, de Rossini Pinto), Miguel Zabaleta Y Topsys, Buddy Richard, e a cantora Cecilia.

Ainda, no campo do rock merecem registro os grupos Los Beat 4, Los Sonnys, Los Larks (que rivalizam com Los Jockers, ao estilo Stones x Beatles), Los Psicodélicos, Los Blops e Congresso, que variavam seu repertório entre o som beat, a psicodelia e composições com acento regional.

Outro grupo chileno de grande importância é Kissing Spell, que gravou o disco Los Pajaros, em 1970, com um raro trabalho de guitarras, vocais em inglês, hoje integrando a listas de álbuns raros da psicodelia mundial, com recente reedição em cd, e inclusão de uma faixa na coletânea Love, Peace & Poetry.

O rock peruano nasceu em 1957, com um registro do grupo Los Millonarios del Jazz, tem como marco inicial da cena o disco de estréia do grupo Los Incas Modernos, mas o “pai” do rock nacional é o grupo Los Saicos, a mais radical banda de garagem da América do Sul, que gravou apenas seis compactos, em espanhol.

Depois disso, já com a entrada da beatlemania em cena, o rock peruano ganhou novos atores, como Los Jaguars (instrumental), Los Shain’s, Los Doltons, Los Silvertons, Los Yorks e Los Belking's, também instrumental, que tomaram de assalto o mercado musical do país, deixando excelentes compactos e álbuns gravados.

São clássicos da primeira fase do rock peruano os singles de Los Saicos, especialmente Demolicion, os três discos de Los Shain's, os primeiros álbuns de Los Yorks (Los York's 67 e Los York's 68) – clássicos da psicodelia latina, De Vacaciones com Los Doltons (com versões para O Caderninho, de Erasmo Carlos, e Parem Tudo, de Leno & Lilian) e os álbuns dos Belkings.

Com o surgimento da psicodelia, outros grupos despontam por volta de 1968, em especial Traffic Sound, com seus dois primeiros e clássicos álbuns – A Bailar Go Go e Virgin - Los Golden Star, Los Mads e (St. Thomas) Pepper Smelter (cujo primeiro e único álbum chegou a sair no Brasil), Los Sideral's, e ainda, Los Pasteles Verdes (pop) e Los Holy's (instrumental).

Mais para o final da década, grupos com o Laghonia, o mais genial de todos, e El Humo, entre outros, produziram ótimos discos de psicodelia, ao mesmo tempo em que outros como El Alamo e Cacique seguem o mesmo caminho, e El Opio e El Ayllu introduzem elementos latinos, com influência de Santana e outros grupos americanos.

Na virada dos anos setenta, a fusão do som beat/psicodélico e o nascente hard rock resultou em bandas como We All Togheter (ex-Laghonia, e fortemente influenciado por Beatles/McCartney), Telegraph Ave., Pax (que gravou o primeiro disco de hard rock do Peru), Tarkus e El Polen, o primeiro grupo a mesclar psicodelia e música andina.

Também influenciada pelo rock and roll mexicano, especialmente de Los Teen Tops, a cena roqueira sessentista da Venezuela afirmou-se com o pioneiro Los Impalas, o primeiro grande grupo do país. Seguindo os passos de Los Impalas, também destacaram-se Los Supersonicos, Los Dangers, Los Claners e, mais tarde, Los Darts e Los 007, entre outros.

No início dos anos setenta, integravam a cena roqueira venezuelana os grupos e intérpretes Tsee Mud, Pan, La Cuarta Calle, Sky White Meditation, Una Luz, La Fe Perdida, El Nucleo X de Gerry Weil, Pastel de Gente, Le Zigui e Syma. Em 1969, o grupo Ladies W.C., lançou um raro álbum, com sonoridade psicodélica e letras em inglês, atualmente reeditado em vinil.

Já a cena roqueira colombiana é uma das menos conhecidas de toda a América Latina. Um dos pioneiros e dos mais destacados grupos foi Los Flippers, em meados dos anos sessenta. Também integraram a cena beat-garagem os grupos Los Speakers, Ampex, Los 4 Crickets, Los Monkees, Opus, e Los Yetis.

Um dos grupos mais emblemáticos da cena colombiana foi Los Young Beats, com visual e repertório orientado para o beat e para a garagem, que gravou o discos Ellos Estan Cambiando Los Tempos, com versões e covers de Rolling Stones, Kinks e Them. Já na segunda fase do rock, influenciada pela psicodelia e pelo hard rock, destacaram-se os grupos Opus e Genesis, entre outros.

Ainda menos conhecida, a cena paraguaia dos anos sessenta talvez tenha sido a que mais sofreu com a censura ditatorial, no caso do general Alfredo Stroessner, que “governou” de 1954 a 1989. Os dois principais “sobreviventes” foram os grupos Aftermads e Los Blue Caps, que gravou dois discos – Dejame Mirate, em 1969, e Cuando te Miro, en 1970, sem reedição em vinil ou digital.






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