A doce microfonia do Superguidis



26 Setembro 2018

por Marcus Vinicius Losanoff

Nesses tempos modernos e híbridos, que escoam e escapam por entre os dedos, é mais difícil perceber, sentir e mesmo se importar com o que (e sobretudo com quem) nos cerca, posto que o mundo mudou e o tempo da rua do amor passou. Porém, entre 2002 e 2011, diretamente de Guaíba/RS, convivemos com um grupo de anti-heróis encabulados que plantaram o seu destino em mudas de eucalipto. Superguidis. Era A banda de rock independente brasileira que nos fazia sentir e nos importar de novo, seja com suas palavras (em letras cotidianas, simples e diretas; no início juvenis e espirituosas ao final maduras e reflexivas), com sua música (ruidosa, poderosa, urgente, melódica e pop), com sua performance (de entrega no palco, cujas versões ao vivo soavam sempre mais cruas e urgentes que as gravadas em estúdio), ou com sua inerente e indelével "guaibensidade" (não sei se existe essa palavra, já procurei no dicionário), seja tocando em Porto Alegre, São Paulo, Brasília, Recife, Rio ou Buenos Aires, entre outras cidades emergentes. De repente, agora todas as canções de amor faziam sentido.

Não é questão aqui de cravar aquelas adjetivações tão legais, cujas vocês sabem quais são: a melhor, a inovadora, a mais importante - não, não tenho essa pretensão. Mesmo porque hoje ouvimos por aí que tudo é exclamação, pois todos são tudo, todos são gênios, tudo é hino, tudo é grito, tudo é berro e todos estão surdos - prisioneiros das imagens da broadcastização. Mas o fato é que os quatro vagabundos iluminados de Guaíba nunca quiseram ser gênios, desses que fazem história, pelo contrário, queriam fazer tudo que você faz. Queriam tentar de outro jeito e, numa spiral arco-íris, ir chegando lá, meio fora dos padrões. Lançaram no Brasil pela Senhor F Discos, do mestre Fernando Rosa – e também na Argentina pela Scatter Records, de Pablo Hierro e Sylvie Piccolotto - três obras impecáveis e imprescindíveis do rock nacional, reconhecidas e aclamadas por todos aqueles que – entre critica e público – acreditavam e acreditam nos riffs da banda: “Superguidis” (2006), “A Amarga Sinfonia do Superstar” (2007) e “Superguidis” (2010). Álbums muito mais valorizados que o PIB da China em 2003.

Assim, fomos guiados pela voz de Andrio Maquenzi, pelos seu timbres canhotos e pelos inolvidáveis duelos de guitarra safra 93 com o Professor Pedal, Lucas Pocamacha, ambos atacando as seis cordas no palco com fúria e paixão únicas entre as bandas de rock brasucas do mesmo período. Na cozinha, o chef Diogo Macueidi temperava a mistura com linhas de baixo seguras e a postura sempre cool, tentando em vão não ser notado. E sentado na bateria, sentando a mão na caixa, Marco Pecker, combinando precisão no ritmo e firmeza na execução com o sorriso de quem não se preocupa com o que não vale a pena. Zen-baterista.

Enquanto a maior parte das bandas e artistas do cenário independente nacional experimentava durante a primeira década do século XXI o auge da fusão do rock com MPB, ritmos regionais (samba, bossa-nova, música nordestina) e música eletrônica, do outro lado do rio os quatro dissidentes de Guaíba abraçavam os sons dourados de territórios urinados que emergiam do pantanoso lodo de mel do início dos anos 90, rumo ao nirvana. Inclusive mantendo a tradição gaúcha de sempre buscar identidade própria frente ao cenário ou tendência nacional dominante (que não raro, tal qual o mercado norte-americano, emitia falsos lucros), subvertendo inclusive o próprio conceito de ®ock gaúcho, ou o que se esperava dele. Guidis não usavam mullets, não eram mod(a). E com tanto artifício assim, é difícil ser você mesmo; mas eles foram capazes. Mais do que isso. Não fosse o bom humor escrachado, poderiam ter se envolvido em brigas, picuinhas e incomodações por não se encaixarem nessa marca registrada musical sulista que, da Lancheria ao Ocidente, exalava Stones e Jovem Guarda. Ser pedra (rolante) é barbada, mas o Rei Roberto dos guaibenses herméticos era Robert Pollard.

Superguidis tampouco era pós-grunge, mas representava musicalmente o aroma teen spirit do seu tempo, cuja parte boa eriçava os fios dos cabelos que agora cresciam na orelha de véios máximos. Era a doce microfonia do Superguidis, que fazia a cabeça dos saudosos do sonho alternativo, plugados à fórmula loud-quiet-loud de guitarras distorcidas como um fã-clube adolescente. E por outro lado, uma banda conectada a uma nova geração que só conhecia Dave Grohl em sua versão front man, empunhando guitarra ao invés de baquetas, que se identificava com a piercintagem e com cada sílaba ou tônica aguda versadas e tocadas pelos quatro guris de apartamento. Ou que simplesmente lia em seus olhos, apenas.

E, agora, em setembro de 2018, somos regalados com O Manual de Instruções – Tributo ao Superguidis (Senhor F Discos e Scatter Records), onde 21 artistas e bandas convidados do Brasil e Argentina trazem versões que guardam como traço comum a paixão e o cuidado com o material em cada nova interpretação, algumas delas capazes de nos fazer chorar como criança perdida da mão da mãe no centro. Um tributo sinceramente afetivo, com novas visões além do alcance de clássicos jovem-grungeanos, mas ao mesmo tempo respeitosas à essência, sinceridade e simplicidade de quem tem um par de tênis furado. Ou seja, este tributo é como uma reunião de velhos-novos amigos numa droga de bar, entre a saudade e o all-star, retribuindo toda a acidez de um abraço embriagado que um dia por esses guris nos foi ofertado. Parece besteira, mas como já disse um amigo meu: besteira é coisa séria, é preciso com ela filosofar. O mundo mudou, a banda acabou, mas o coraçãozinho sobreviverá.


* Marcus Vinicius Losanoff - jornalista, DJ e podcaster (CAMB¡O e ALT 90).

- CAMB¡O: http://www.radiograviola.com/category/podcasts/cambio/arquivos-2018/
- ALT 90: http://www.radiograviola.com/category/podcasts/alt-90/ 

* Arte sobre foto de Bruna Paulin.






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