Os Mocambos, pioneiros modernos do marabaixo



16 Novembro 2018

por Fernando Rosa

O disco "Os Mocambos apresentam: Marabaixo - O folclore amapaense" é um dos registros mais raros da música do Norte do Brasil. A obra foi gravada em 1973, em Macapá, capital do Amapá, e lançada pelo lendário selo Rozemblit, de Recife, no mesmo ano. A história do disco é uma peça de resistência cultural, contada por Hernani Vitor Guedes, violonista e criador do grupo.

Em 2006, Hernani Victor Guedes publicou artigo no livro Rumos Brasil da Música, divulgado pelo instituto Itaú Cultural. No artigo, "O Primeiro LP Independente do Amapá", ele conta que o disco foi gravado em uma noite, no mês de maio de 1973. Em um estúdio improvisado na sala de uma casa, em Macapá, o grupo gravou as 12 músicas em apenas quatro horas.

Depois de oito meses da gravação, a fita chegou à gravadora Rozemblit, que lançou o disco no mesmo ano. O disco trazia temas populares do marabaixo no lado "A" e, no outro lado, composições do grupo, com acento da MPB da época. Nesse meio tempo, a fita master foi roubada em Recife, depois localizada por um detetive contratado para tal. Um dos temas do disco - Aonde tu vaiz rapaz - foi regravado por Luiz Gonzaga, em 1975.



Natural de Cametá, no Pará, terra de Mestre Cupijó, Hernani havia feito contato com o marabaixo em viagens que fizera ao Amapá, ainda nos anos 40. "Em Macapá quem dançava marabaixo ou batuque não era convidado para os bailes sociais", lembrou ele em seu artigo sobre o disco. Já vivendo em Macapá, ele fez sucesso com Os Mocambos nos anos sessenta, tocando em bailes.

Segundo o Wikipedia, o marabaixo é uma manifestação folclórica amazônica, que inclui ritmo musical (ladrão) e também uma dança de roda de origem africana. O nome também se aplica ao tambor utilizado nesse estilo musical, chamado de "caixa de marabaixo" Atualmente, é a maior tradição cultural da região, realizada durante os festejos em louvor aos santos padroeiros das comunidades afro-descendentes do Amapá, sendo um dos símbolos da cultura amapaense.

De acordo com Danniela Ramos, do Grupo Marabaixo do Laguinho, "todo o cotidiano da comunidade em que viviam (os cantores do marabaixo) virava música, daí o termo ladrão de marabaixo”. O termo "ladrão", segundo ela, é utilizado para as músicas (cantigas) de marabaixo pelo fato dos seus compositores, antigamente a maioria analfabetos, mas que tinham o raciocínio incrível. "Tudo o que eles visualizavam virava música".





O Marabaixo é a maior e mais autêntica expressão cultural do povo amapaense. Segundo o jornal, O Diário do Amapá, o marabaixo está presente principalmente nos bairros do Laguinho e Santa Rita, na zona urbana de Macapá; mas também em outras comunidades negras do Amapá, como Mazagão Velho, Campina Grande, Lagoa dos Índios, Coração, Curiaú, Maruanum, entre outras. 


O Marabaixo é originário do Marrocos, onde o mar era o lugar mais próximo das terras natais dos africanos escravizados. Assim, como forma de expressar seus lamentos diário criaram o "mar-a-baixo". O gênero chegou ao Brasil no século XVIII, na transferência da colônia portuguesa de Mazagan (atual El Jadida), no Marrocos, para a fundação da comunidade Nova Mazagão, no Amapá.


O disco

Temas do foclore


1 - Rosa Branca açucena
2 - Olô Olô
3 - Lírio Roxo
4 - Aonde tu vais rapaz
5 - Vem pra cá Yoyô, Vem pra cá Yayá
6 - Eu tinha mamãe, eu tinha

Composições do grupo


7 - Devaneio (Fernando Canto)
8 - Tema de Viver (Aldomário e Fernando)
9 - Brasul? Branorte (José Maria Santos)
10 - Declaração (Hernani Vitor Guedes)
11 - Elizabete (Tito e Fernando Canto)
12 - Amor que sonhei (Hernani Vitor Guedes)

Participaram da gravação


- José Maria Santos (bateria),
- Eulálio Lucien (baixo),
- Aldomário Henrique (guitarra solo),
- Fernando Canto (guitarra base),
- Hernani Victor Guedes (violino),
- Raimundinho (órgão),
- Cícero (Tito) Melo (crooner),
- Aldomário, Fernando, José Maria e Cícero (Tito) (vocais),
- Ismael (sax tenor),
- Martinho Ramos (bangô),
- Elizabete Ramos (vocal, afuxê),
- Cícero (Tito) (flauta),
- Venilton Leal (banjo).

Ficha técnica
 

Carlos Augusto - eletrotécnico,
Alberto Uchoa - gravação,
Enoque Lima - assistente,
Hernani Vitor Guedes - coordenador geral
Carlos Nilson - capa
 






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