O Manual de Instruções, faixa a faixa



24 Novembro 2018

por Marcus Vinicius Losanoff

Existem diferentes formas e critérios para se organizar um tributo, um compilado, uma coletânea. Tampouco há um único manual de instruções para se chegar ao “melhor” resultado. Neste caso, segundo conta Fernando Rosa, editor do portal, selo e produtora Senhor F, optou-se por fazer um “tributo afetivo”, ou seja, trazendo artistas que de alguma forma estiveram ligados aos quatro guris de Guaíba.

Como os acreanos Los Porongas, por exemplo, que os ajudaram a viajar mais de 3 mil quilômetros até o norte, quase um novo Caminho do Peabiru. Assim como fizeram os paraenses do The Baudelaires, levando a banda gaúcha para tocar em Belém e conhecer as maravilhas do Mercado Ver-o-Peso. Todos têm sua história pessoal com o grupo, que por sua vez soube construir a sua própria história no cenário alternativo do rock gaúcho e brasileiro.

O tributo reúne 21 bandas de vários estados, sendo 6 delas também da Argentina, país onde os Guidis se apresentaram com frequência entre 2007 e 2010, recebendo lá o maior público de sua carreira, como convidada especial no palco principal da terceira edição do Festival Ciudad Emergente (Buenos Aires, 2010), logo antes da “atração surpresa” que fecharia a noite, a clássica banda argentina Divididos. ¡Aguante Los Guidis!

Faixa a faixa

Susto! O álbum começa sem guitarras, sem explosão, sem vocais, mas – alívio! - com sentimento... afinal, é de um tributo afetivo que estamos falando. O gaúcho Fabrício Sofia, que conheceu a banda através do irmão, nos apresenta uma versão familiar de “O Véio Máximo”, tocada ao piano e gravada por ele em 2006, um dos primeiros covers feitos do Superguidis. E também uma espécie de trilha de cinema mudo lo-fi à la Daniel Johnston, que nos obriga a cantá-la junto assim que reconhecidas as primeiras notas, além de nos fazer perguntar: por que cargas d’água nunca ouvimos esse clássico no Theatro São Pedro? Fica a dica. Acomodem-se, pois o espetáculo já começou.

A banda paulista Lestics dá uma nova cara e novos ares à “Malevolosidade”. É deixada de lado a fúria e energia da original (que tanto encantaram o vocalista Olavo Rocha ao ouvi-la pela primeira vez), para saborearmos a melodia e levada power pop, com direito a solo de saxofone, algo tão inusitado quanto memorável.

Desde Buenos Aires, o quarteto Ragazzas tem a missão de recriar “Apenas Leia”, uma das músicas mais queridas e icônicas dos Guidis, basta olharmos o número de audições do tema original no Youtube. E a ideia aqui foi exatamente desacelerar a sonoridade anos 90 em prol de um pop à la 80, com direito a sintetizadores retrô-futuristas, e versos mesclando português gaúcho e espanhol argentino pelo vocalista e baixista da banda, Joel Fiorire. No pasa nada. Tudo erva do mesmo mate.

Uma batida seca e baixo se impõem e nos guiam pela canção com atmosfera pós-punk e solo espacial. É a versão dos acreanos Los Porongas para “Manual de Instruções” que mantém o tom de lamento com as relações humanas da letra, aprofundando a sensação de vazio e solidão.

O “Véio Máximo” ganha nova interpretação no tributo ao Superguidis, agora mais dramática e lúgubre na voz de Miguel Martins, vocalista da banda Watson, de Brasília, lembrando inclusive algumas inflexões vocais do saudoso Flávio “Júpiter Maçã” Basso, em contraste com um arranjo belo e delicado. Definitivamente a noite já chegou.

Jéf conheceu o Superguidis quando ainda era um guri de apartamento, através das imagens da radiodifusão do programa Radar, da TVE gaúcha. Ali o então estudante colegial flagrou “umas guitarras sujas, um cara meio bonito e esquisito, cantando umas coisas legais com umas melodias boas e grudentas”. Mais tarde, o menino Jéferson encontrou o disco de estreia dos Guidis num show no interior do Rio Grande do Sul. “Eu era um jovem do interior, começando na música, descobrindo pedais de distorção na guitarra e tentando fazer cover de Nirvana com minha primeira banda”. Corta para 2018. Jéf, adulto, nos entrega uma versão folk-gaudéria e nada suja ou distorcida de “Mais um dia de cão”, concentrando-se nos violões e, como se nota em todo o projeto, realçando tanto a qualidade melódica quanto harmônica da banda guaibense.

Em mais uma conexão Guaíba-Buenos Aires, é a vez da banda Impermeables, versionando “A parte boa”, e também a primeira do tributo – digamos - mais fiel à original, ainda que aqui soe mais limpa, e cantada 100% no idioma de Charly García.

The Baudelaires, de Belém do Pará, traz “Discos arranhados” para o terreno do power pop, onde provamos um doce e relaxante cupuaçu lisérgico com sabor de “Tomorrow never knows”, além de belas harmonias vocais.

Cine Baltimore, de Porto Alegre, inverte a chave em sua subversão punk rock/riot grrrl de “Bolo de casamento”, onde o vocal seco de Letícia Rodrigues torna ainda mais urgente e revoltado este libelo anti-matrimonial.

Beto Só deixou “O banana”, um dos temas mais populares dos Guidis, soar mais... pop e também mais conformado, consciente, e menos loser e autodepreciativo no tom, nesta versão do músico de Brasília que já existia desde 2014.

Império da Lã, projeto paralelo – e sem formação fixa - de Carlinhos Carneiro, líder da Bidê ou Balde, transforma “Lucina” em um tema funkeado e viajandão, numa das mais surpreendentes interpretações do álbum. Para o feito, Carneiro viajou até São Paulo e reuniu Guri Assis Brasil, Guilherme Almeida, Gilberto Junin, Thiago Guerra (Fresno), Gabriel Guedes (Pata de Elefante) e Maurício Nader (Sinuca de Bico). “Lucina” foi escolha óbvia de Carlinhos para o tributo, pois em todos os shows que assistia do Superguidis e a pedia – em vão. Espécie de “toca, Raul!”, “Lucina” foi a “Anna Júlia” dos Guidis, o “bis maldito” que caiu no gosto pessoal de Carneiro.

Fuzz X, outra banda argenta do tributo, mantém as guitarras altas em sua versión de “Fanclube adolescente”, com direito a teremim "espacial" sobrevoando os ouvidos no final.

Ansiedaed é mais uma “all star band“ do rock gaúcho a figurar no compilado, conta com Diego Medina (vocal, Video Hits/Doiseu Mimdoisema) Carlos Ferreira (guitarra/Quarto Sensorial), Brenno Di Napoli (baixo/URSO) e Fu_k the Zeitgeist (Valmor Pedretti Jr., bateria e sintetizadores/URSO). O resultado dessa união é uma “Mais do que isso” mais suja, mais gritada e mais caótica que a original. Post-hardcore na veia.

“Superguidis ainda é minha banda favorita do Brasil e todo domingo coloco algum disco deles pra escutar”. Palavras de Camillo Royalle, vocalista e guitarrista da banda de rock paraense Turbo. E quem o acompanha no Facebook – sobretudo aos domingos - sabe que o que o rapaz diz (e posta) é verdade. “Guri de apartamento”, gravada pelo Turbo há dez anos, ganhou uma “rajada” de vigor e, arrisco dizer, deixou o tema ainda mais Guidis que o original. E como os guaibenses são influência declarada dos paraenses, então ta tudo em casa.

A banda Frida, de Gravataí, naturalmente escolheu “Spiral-Arco-Iris”, canção que ela já costumava tocar - ou brincar de tocar - durante os ensaios. Fazendo reverência à irreverência da letra e música, possui um quê de The Cure e New Order nos teclados e baixo.

“Manual de instruções” também foi a escolhida pela banda de garage rock Los Posibles (Argentina), mas ao contrário da visão oitentista de Los Porongas, aqui não há muitos riscos a serem tomados, em compensação há pequenos detalhes que deram novo color ao tema, como a guitarra que entra solita no início, o vocal distorcido de Hxctxr Posible e os ótimos coros, tão cálidos quanto etéreos a cobrir boa parte dos 2:40 do tema. Ah, si las personas viniesen con manual de instrucción, uma queixa universal.

Se em “Roger Waters” o piano originalmente soa discreto e secundário, e as cordas eram ouvidas em momentos-chave, com Cláudio Bull (Superquadra/DF), ambos ganham protagonismo. E o que era reflexivo se torna melancólico. “Eu já tinha escutado falar do Superguidis e no dia 23/05/2004 fomos tocar com o Superquadra no (festival) BANANADA em Goiânia/GO. Quando terminou o nosso show, o próximo seria o do Superguidis. Vi o show e fiquei de cara. Assim que terminou eu fui falar com o Andrio (Maquenzi, vocalista e guitarrista), dizendo que havia achado muito bom o show e que iria tentar fazer um em Brasília (ele nem deve lembrar disso)”. E as duas “Super” bandas acabaram tocando juntas no Distrito Federal, no dia 19 de agosto do mesmo ano, em uma Noite Senhor F no finado Gate’s Pub.

Wander Wildner, anfitrião do Superguidis desde o primeiro show dos conterrâneos em São Paulo, gostou da banda assim que a ouviu tocando na Rádio Ipanema, de Porto Alegre. “Depois, fui nos shows e virei fã. Como se não bastassem as músicas, eles me pareciam uns caras legais, e são”. O ex-punk brega, eterno Replicante e um dos grandes nomes da história do rock gaúcho canta “Piercintagem”, que ganha levada garageira e vocal sóbrio de Wander Wildner.

Lo Inadvertido, de Buenos Aires, “Visão além do alcance” traz uma versão mais fiel à original, tanto nos arranjos, quanto no andamento, apenas mais crua – e mais uma cantada em espanhol. Ainda que em alguns versos, devido ao vocal “afundado” de Nicolas Cuenca, há uma certa dúvida se são pronunciados em português - ou portunhol.

E fechando O Manual de Instruções – Tributo ao Superguidis, que tal uma super-guitarrada? Resumindo, Andro Baudelaire (vocalista do grupo The Baudelaires, também presente no tributo) faz o diabo com “O raio que o parta”, e o raivoso e ruidoso tema vira aqui uma guitarrada experimental, convidando o ouvinte para bailar.

* Marcus Vinicius Losanoff - jornalista, DJ e podcaster (CAMB¡O e ALT 90). 

* Foto: Bruna Paulin/arte Veraz Comunicação.







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