A conexão amazônica em ondas tropicais



29 Janeiro 2019

por Fernando Rosa

As expressões mambo, merengue e cumbia, especialmente, estão presentes nos discos dos artistas da Amazônia, seja nominando músicas ou discos. Os guitarristas paraenses Aldo Sena e Mestre Vieira têm músicas chamadas New cumbia e Vamos dançar a cumbia; o saxofonista Teixeira de Manaus batizou um de seus discos com o nome de Na ginga da salsa, cumbia e merengue. Entre outras referências, um dos clássicos de Mestre Cupijó, em seu segundo disco, nos anos setenta, se chama Mambo do martelo.

Além de outras evidências, os discos comprovam materialmente a existência de um profundo processo de integração da música brasileira e latina, em meio ao fantástico mundo amazônico. A influência latina nos artistas da região, especialmente nos estados do Pará e Amazonas, se deu por várias maneiras, a partir dos anos sessenta. A primeira delas, por meio das rádios "ondas curtas", ou "ondas tropicais", e também pelo intercâmbio de partituras e discos, pelas mãos dos marinheiros, nos portos da região.

Em Belém e interior, entre os anos 1950 e o início de 1960, principalmente nos fins de tarde, era o hábito sintonizar os aparelhos de rádio nas emissoras de países próximos. A informação é do radialista Edgar Augusto, neto de Edgar Proença, fundador da Rádio Clube do Pará, na tese acadêmica "Construindo fronteiras sonoras entre o Pará e o Caribe: das ondas tropicais aos intercâmbios portuários", de Andrey Faro de Lima na UFPA-Pará/Brasil. A explicação técnica é que as rádios em "ondas tropicais" sintonizavam com maior mais nitidez.

Segundo o autor da tese, a Rádio Habana era a mais popular, entre as estrangeiras, onde se escutavam merengues e salsas. Por conta disso, alguns artistas se tornaram conhecidos e referências para os músicos amazonenses, como Angel Viloria e Luís Kallaf, da República Dominicana, e Los Corraleros de Majagual, da Colômbia. Nos anos oitenta, na esteira do merengue e outros ritmos, foi a vez da músicas das Antilhas Francesas, como o cadence e o zouk chegar aos ouvidos paraenses, especialmente.

A conexão da música brasileira com outros países da região também envolveu o Peru, em especial pela conexão fluvial Belém-Iquitos e pela fronteira das cidades Assis Brasil e Pucalpa. Com o fim do ciclo da borracha e por conta de um boom de petróleo no Peru Oriental, inúmeros nordestinos cruzaram a fronteira, levando junto a cultura regional. De Pucalpa, surgiu o grupo Juaneco y Su Combo, que gravou versão de Mulher Rendeira, e de Iquitos, Los Wembler's que regravaram Carapira, de Pinduca.







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