Gravadora Gravasom, um fenômeno regional



04 Janeiro 2019

por Fernando Rosa

A gravadora Gravasom, criadaem Belém, no estado do Pará, é um dos fenômenos clássicos da indústria musical dos anos oitenta. Assim como em outros países, ela surge com a definitiva popularização mundial e nacional da mídia vinil. E, como seus pares internacionais, atuando em nicho, no caso regional - no Norte do Brasil, e musical - lambada e brega, principalmente.

Em atividade desde os anos setenta, a Gravasom é obra da genialidade e do senso de oportunidade do radialista, empresário e cantor Carlos Santos. Desde Belém, a gravadora deu bases para a produção musical e criação de um inédito mercado regional. Mais do que isso, formatou uma "fórmula" musical que resultou em gêneros fundamentais para a música do Norte - a lambada, beiradão e o brega.

Até os anos oitenta, a alternativa para os artistas do Norte era gravar em Recife, na Rozemblit, ou em São Paulo e Rio de Janeiro. Mestre Cupijó, por exemplo, teve seus dois primeiros discos gravados e lançados nos anos setenta pelo selo Escorpião, da Ronzemblit. A Gravasom permitiu que os artistas populares do Norte pudessem gravar um disco.

"O Carlos Santos montou um esquema muito interessante. Ele tinha o estúdio para gravar, a rádio para tocar, a distribuidora para colocar os discos nas lojas e a rede de lojas para vender os discos", diz o guitarrista e produtor Manoel Cordeiro, na revista Seleta, publicada em Belém. Em atividade até hoje, Manoel é uma espécie de memória viva da história da gravadora e daquela época fundamental para a música brasileira.

Na base da rede, estava o estúdio de gravação, que contava com a genialidade do cantor, compositor e produtor Alípio Martins e músicos de primeira qualidade. No início dos anos setenta, Pinduca e seu grupo respondiam pelas gravações dos artistas, cantores e instrumentistas. A partir de 1983, o grupo de Manoel Cordeiro acompanhou centenas de artistas. O estúdio iniciou com 4 canais, passando para 16 e, por fim, 24 canais.

“Alípio foi o cara mais criativo desse turma toda”, diz Manoel Cordeiro, na entrevista à revista Seleta. Alípio chegou a Belém, deportado dos Estados Unidos, e depois de ter sido expulso da casa da irmã, no Rio de Janeiro. Alípio já estava na Gravasom, como produtor, quando a música “Quero você”, com Carlos Santos, dono da gravadora e cantor, estourou nacionalmente, vendendo mais de 1 milhões de cópias. Alípio gravou dezenas de hits, entre eles “Piranha” e “Garota”.

Entre os artistas que foram lançados pelo selo Gravasom, além de Carlos Santos e Alípio Martins e do guitarrista Barata, estão Roberto Villar, Tonny Brasil, Kim Marques, Mauro Cotta e grupos como Os Panteras e Lambaly, entre outros. Pelo estúdio da Gravasom, também passaram a maioria dos artistas da Região Norte, como o guitarrista André Amazonas, o saxofonista Chico Caju e o cavaquinista Nonato do Cavaquinho, os três do estado do Amazonas.

Em sua estratégia de construção de um mercado, a Gravasom contou com duas iniciativas editoriais de sucesso. A primeira, a série "Guitarradas", assinada por Carlos Marajó, um guitarrista fictício - na verdade, Aldo Sena e Oseas. A outra, também uma série, "Lambadas Internacionais", com merengues, calipso e zouk das Antilhas. A primeira teve 7 volumes e a segunda 10 volumes. Também foi importante a coletânea “Gente da Terra”, em dois volumes, destacando os artistas do brega.

Segundo a Wikipedia, a Gravasom encerrou as atividades em 1993, na condição de selo minoritário das Gravações Elétricas S.A..Com a compra da Continental pela Warner Music Brasil, a Gravasom passou a fazer parte da Atração Fonográfica, juntamente com outros selos minoritários. A atração já reeditou alguns títulos da Gravasom, entre eles, volumes da série "Lambadas Internacionais" e álbuns de Carlos Santos.

Em uma década, a Gravasom promoveu um inédito mercado regional gerado a partir de Belém que chegava até o norte da Bahia, amparado em acordos da Gravasom com selos grandes, como Continental e a Polygram. No entanto, mais importante do que a quantidade de discos vendidos é ter sido a base do desenvolvimento de um dos mais importantes gêneros modernos da música brasileira, a lambada-guitarrada.






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