The Jungle Cats, a revolução no bairro Floresta



04 Setembro 2019

por Fernando Rosa

Em 1964, a invasão da beatlemania explodiu em todas as cidades, bairros e esquinas do Planeta Terra. Em Belo Horizonte, mais exatamente no bairro Floresta não foi diferente. Nas calçadas e esquinas do bairro, a música dos cabeludos de Liverpool fez escola rapidamente. Mais, do que isso, transformou o bairro, sabe-se lá por qual razão, em um impressionante centro de ebulição da nova música e espécie de fábrica de conjuntos, como se dizia na época.

Em torno de um grupo de garotos com idade média de 15 anos, nascia um desses grupos, talvez o mais importante deles. Batizado The Jungle Cats, originalmente formado por Helvécio (baixo), os irmãos Ramon (bateria) e Ronaldo (guitarra solo) e o primo Roberto (guitarra ritmo), todos Navarro. Apesar de sugerir ligação com o bairro, o nome foi sacado de uma revista americana de quadrinhos, também curtição da garotada.

Super populares, The Jungle Cats ocupou por muito tempo lugar de destaque na cena mineira, ao lado de grupo como Wood Faces, Os Barranqueiros, Flippers, Os Alucinantes, The Kappers, Analfabitles, Beatkings e Vitório e Seus Titãs, entre outros. Todos, claro, antecedidos pelos precursores Brazilian Boys, que largou na frente com versões e covers para os hits da beatlemania.

Além dos grupos, havia também os intérpretes que brigavam pelo seu espaço, como Márcio Greyck, cujo sonho era fazer parte dos Jungle Cats. Talvez por isso, tenha gravado seu primeiro disco com acompanhamento dos cariocas The Bubbles, depois A Bolha. Outro que fazia parte da turma era Sylmar Byrro, responsável por estranhos covers para clássicos dos Rolling Stones e Troggs. Syrlan (de Viva Zapátria), que antes da carreira solo, foi baterista dos Alucinantes, também surgiu em meio a ebulição das bandas do bairro Floresta.

Com a saída de Helvécio, que formou Os Barranqueiros, e também de Ramon e Ronaldo, entram no The Jungle Cats Carlos Greco (baixo), Hipólito (bateria) e Dalton Meireles (guitarra solo). Com a entrada de Carlos, um exímio compositor, e de Daltinho, então com 15 anos, um excepcional instrumentista (além de guitarra, tocava violino e piano), o grupo ganha a sua versão mineira de Lennon & McCartney. Daltinho, além da habilidade musical, tinha uma pinta de Brian Jones, com seus cabelos loiros e lisos, que atraia uma multidão de menininhas para as apresentações do grupo.

Com esta formação, o grupo grava o raro e clássico compacto contendo a música ‘Vai’, de autoria de Carlos, e a versão de ‘It’s no Use’, dos Byrds, traduzida para ‘Sapato Novo’. O original ‘Vai’ é um caso típico de ‘Pebbles’ nacional, com sua levada punk-garageira e riffs de guitarra que fugiam dos padrões da beatlemania e passavam ainda mais longe da Jovem Guarda. Um hit perfeito que já deveria ter sido regravado por alguma banda atual.

Nela, ficam evidentes as principais influências do grupo, que iam de Beatles a Peter & Gordon, passando por Herman Hermit’s e, de forma especial, Byrds e Kinks. O grupo Swinging Blue Jeans (‘Old Man Mouse’/A História de Um Homem Mau) também integrava a lista de prediletos dos Jungle Cats. Por outro lado, o guitarrista Ronaldo era um expert em rock dos anos cinqüenta, com acesso a informação e discos do exterior.

O compacto vendeu cerca de 50 mil exemplares, apenas em Minas Gerais, transformando-se em um dos maiores fenômenos fonográficos da região. O disquinho foi lançado pelo selo local Paladium, depois Bemol, de Dirceu Cheib, um dos poucos, ao lado do pernambucano Rozenblit, a se criar fora do eixo Rio-São Paulo. O mesmo selo também lançou uma série de outros compactos e LPs de rock e Jovem Guarda, hoje verdadeiras peças de colecionadores.

Logo após a estréia em disco, soma-se ao grupo o pianista Sérgio Greco, irmão de Carlos, até então uma espécie de roadie, técnico de som e produtor do grupo. Sua entrada vinha sendo adiada por conta do receio de lembrar a formação de grupos de rock and roll dos anos cinqüenta. Mas, com o surgimento dos Animals, especialmente, que incluia em sua formação o tecladista Alan Price, o medo dissipou-se.

Oriundo de uma família de músicos, Sérgio Greco também tocou com o grupo The Kappers, outra raridade da discografia mineira dos anos sessenta. O grupo lançou apenas um compacto pelo selo Bemol, com as músicas ‘Eu Acredito (I’m Believer)/Quero Ter Você’. O irmão Carlos também participou posteriormente do grupo Alarme Falso e ainda hoje toca bossa nova e jazz.

A partir de então, com a formação clássica, o quinteto conquista definitivamente a juventude mineira, ampliando seu raio de ação para além dos limites do bairro Floresta. Com o sucesso crescente, passam a ser presença constante em programas clássicos da época, com o Brasa 4, e também nas domingueiras do ‘Garrafão’, clube que promovia verdadeiras maratonas de bandas, reunindo cerca de 10 conjuntos por tarde/noite - a função começava às 14 e rolava até às 22 horas, pelo menos.

Em 1966, o grupo conquista o primeiro lugar na eliminatória regional do I Festival de Conjuntos da Jovem Guarda, organizado pela TV Record, e apresentado por Roberto Carlos. Em segundo lugar, ficou o grupo Wood Faces, também do bairro Floresta, e talvez o rival mais forte dos Jungle Cats junto ao público jovem da cidade. Na final do concurso, em São Paulo, com a música ‘Vai’, não conquistou as primeiras colocações, em grande parte por ter sido prejudicado pelo som durante a sua apresentação.

De volta a Belo Horizonte, retomam a rotina dos shows e, atendendo convite da gravadora Paladium, gravam o LP ‘Gêmini 7 em órbita, com Os Tremendões’, um disco basicamente de covers. Essa faceta de assinar com outro nome, talvez revelanda pela primeira vez nesta matéria, pelo menos para o público além Minas, serviu para preservar a identidade do grupo. Os garotos, assim como centenas de outros grupos de garagem, tinha um perfil mais, digamos, radical e não queriam comprometê-lo com registros "comerciais".

Lançado em 1967, o disco trazia clássicos do rock internacional, da Jovem Guarda e instrumental, como ‘Tema Para Jovens Enamorados’, ‘Gatinha Manhosa’, ‘Listen People’ e ‘California Dreamin’’. Estranhamente para futuros ratos da discografia do rock brasileiro, na última faixa do lado ‘b’, o disco trazia uma gravação de ‘Vai’, original dos Jungle Cats. O disco ainda hoje é encontrado nos sebos de vinil país afora, especialmente na região de Minas Gerais e Centro-Oeste do país.

O grupo ainda tentou gravar um álbum com originais, com o objetivo de mostrar a verdadeira cara sonora dos Jungle Cats, evidenciada em ‘Vai’, algum tempo antes. A idéia era principalmente registrar as canções dos integrantes do grupo, em especial de Carlos Greco, um ótimo compositor. A proposta dos garotos, no entanto, esbarrou na negativa da gravadora, que preferia lançar álbuns de covers.

O "sonho dos anos sessenta" acabou com o fim dos Beatles, o serviço militar para muita gente e a universidade para tantos outros. Com isso, The Jungle Cats também encerrou suas atividades, deixando para a história do rock brasileiro um raro compacto, um LP "anônimo" e uma lenda que segue viva até hoje.






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