The Syliphone Years, a independência da Guiné em música



25 Julho 2020

por Fernando Rosa

A independência dos países africanos produziu uma grande efervescência cultural na região. No caso de Guiné, com a liberdade do jugo imperial francês conquistada em 1958, o novo presidente Sékou Touré apostou na afirmação dos valores nacionais. No campo musical, o governo investiu em orquestras, financiadas pelo Estado. O resultado foi o surgimento de centenas de grupos, em todas as regiões do país.  A Guiné foi um dos principais países defensores do pan-africanismo e da formação da Organização da Unidade Africana (atual União Africana).

O pan-africanismo promoveu a junção de temas ancestrais com linguagem moderna, incluindo instrumentos. A gravadora Syliphone registrou a produção daquele momento histórico, batizado sob o "conceito" Authenticité (Autenticidade). A Syliphone foi a primeira gravadora africana da era pós-colonial financiada pelo estado. Para sustentar e estimular a produção musical, o novo governo construiu um estúdio de gravação com a tecnologia mais avançada da época. Os registros foram gravados em fita magnética nos estúdios da Radio Télévision Guinée (RTG). A RTG era um dos maiores transmissores de rádio da África Ocidental.
 


Segundo o pesquisador Graeme Counsel, em texto publicado pela British Library, "todas as orquestras privadas foram dissolvidas, com o governo criando novas orquestras patrocinadas pelo estado em cada uma das 35 prefeituras da Guiné. "Os músicos das orquestras foram instruídos a modernizar suas tradições musicais locais através dos novos instrumentos ocidentais, que eram uma característica de seus grupos". Também de acordo com o pesquisador, o governo comprou instrumentos musicais, pagou um salário para cada músico ou profissional e criou festivais nacionais de artes nos quais os grupos se apresentavam.

Em sua existência, até 1984, a gravadora lançou 160 discos e uma grande quantidade de singles, com mais de 700 músicas. Os registros abrangem o período de 1960-1965, quando a música cubana exerceu forte influência sobre a nova produção musical africana. No setlist estão presentes Bembeya Jazz National, Horoya Band National, Keletigui et ses Tambourinis e Balla et ses Balladins, entre outras. E, ainda, grupos menos conhecidos como Syli Authentic, Kebendo Jazz ou Palm Jazz. Muitos desses grupos se tornaram conhecidos mundialmente e tem seus discos relançados até hoje, inclusive em vinil.

Além dos registros conhecidos, em 2013, os pesquisadores identificaram gravações inéditas com qualidade de estúdio, datadas da década de 1960. Com a morte de Sékou Touré, em 1984, o arquivo de som do RTG ficou submetido à censura e a negligência dos novos governos. A maioria das gravações nunca foi transmitida novamente, o que resultou em uma geração de guineenses tendo pouca exposição à música de suas mães e pais. Sob coordenação de Counseul, arquivos digitalizados da Syliphone foram disponibilizados pelo Ministério da Cultura da Guiné.
 






 

Na foto: Kebendo Jazz.






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