A influência da música caribenha no mundo



28 Setembro 2020

por Fernando Rosa

A influência da música caribenha no mundo é um fenômeno que ainda precisa ser analisado e valorizado em toda sua dimensão cultural, social e política. Foi dessa região que surgiram gêneros como o son, a rumba, o calypso, o merengue, a cumbia, o mambo, a salsa, o reggae, o compas e, mais recentemente, o cadence e o zouk. São gêneros e ritmos musicais que, desde os 40, pelo menos, influenciaram a música do mundo, do Norte do Brasil até a maioria dos países da África ocidental. Além do jazz, da bossa nova e do rock, a música ocidental deve muito à música originada em Cuba, Trinidad-Tobago, República Dominicana, Haiti, Jamaica, Martinica, Guadalupe e Dominique, entre outros pequenos países.

A influência desses gêneros, em especial o mambo, a cumbia, o merengue e o calypso na música do Norte do Brasil - nos estados do Pará, especialmente, e do Amazonas, é um fenômeno mais recente, que data dos anos 60 e 70. A discografia da música paraense e amazonense é rica em discos que trazem nomes de músicas contendo referências as esses gêneros, o que não deixa dúvida sobre o peso da influência, além da musicalidade em si. A obra da maioria dos principais artistas, dos mais antigos aos mais novos, como Mestre Cupijó, Mestre Vieira, Pinduca, Aldo Sena, Teixeira de Manaus, Manoel Cordeiro, Dona Onete e muitos outros testemunham essa simbiose sonora.



A influência da música cubana, particularmente, na África, no entanto, é mais extensa e mais antiga, se estendendo dos anos 40, pelo menos, até os anos 60, quando explodiu a partir do Congo Belga. Reza a lenda, ou a história, que tudo teria começado durante a Segunda Guerra Mundial, 40, por meio da rádio Belgian Congo Radio que incluiu artistas cubanos como Septeto Habanero, Trio Matamoros e Los Guaracheros de Oriente em sua programação. Sediada em Léopoldville, atualmente Kinshasa, a rádio foi criada pelo governo belga no exílio para combater o nazismo na Bélgica ocupada. A partir da libertação do país, em 1944, a Belgian Congo Radio passou a orientar sua programação para o Congo.

Embora baseada na audição original do "son" cubano, a influência do gênero latino resultou na "rumba", evoluindo para o "soukous", um derivado do francês, da expressão "secouer", literalmente, "agitar", que tomou conta dos países da África Ocidental. A revolução cubana, no final dos anos 50, espécie de motor das sucessivas revoluções anticoloniais na maioria dos países africanos, aprofundou as relações no terreno cultural e, principalmente, musical. Como uma familiaridade próxima à ideia de reencontro cultural, a integração da música cubana com a música africana produziu uma sonoridade particular, com guitarras, sopros, instrumentos típicos e um mix vocal de espanhol e dialetos africanos, capaz de conquistar o mundo. O que, de fato, ocorreu a partir dos anos 60 e 70, em grande escala.



O disco "África Boogallo - The Latinization of West Africa", lançado pelo selo Honest Jon's Records, condensa parte dessa história, trazendo artistas e músicas de países como Congo, Benin, Guiné e Senegal, entre outros, que foram mais longe nessa fusão musical. Outra coletânea fundamental é "Congo 70", da série African Pearls, que reúne artistas congoleses, a fonte primária desse processo, com registros originais desde os anos 50, com obras do grupo Ok Jazz, do guitarrista Dr Nico, especialmente. Nos dois discos, se destacam grandes nomes das gerações seguintes, entre eles, Gnonnas Pedro, Le Grande Kalle, Orchestre Baobab, Papa Wemba, Franco, Johnny Bokelo et Conga Sucess e Manu Dibango.

A viagem sonora por esses países também pode ir além por meio de outros lançamentos de coletâneas e discos individuais feitos por selos europeus e norte-americanos a partir dos anos dois mil, em vinil e cd. A coletânea "Authenticité - The Syliphne Years" é uma obra-prima que traz gravações das orquestras nacionais da Guiné, realizadas entre os anos de 1965 e 1980. Outra coletânea, batizada de "Golden Afrique" sob o subtítulo "The Great Days of Rumba Congolaise and early Soukos", traz registros antigos e dos períodos mais recentes do gênero que se tornou mais conhecido. É importante ainda a coletânea "Roots - Congo Classics, 1955 - 1956", com originais do grupo fundacional Ok Jazz.

Foto da capa: Bembeya Jazz National

 






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