Marte Ataca!: o nada, ao vivo e em preto e branco



18 Dezembro 2020

Da Redação

Em aventura solo, o compositor e vocalista Fernando Brasil retoma cenário de distopia e terra arrasada no país para lançar single novo, a experimental Marte Ataca!. No vídeo da canção, disponível em todas as plataformas nesta sexta (18), o compositor repete parceria com a documentarista Erica de Sousa, de "A Grande Depressão", do Phonopop.

Partindo de questionamentos que pairam no ar da fétida atmosfera de Brasília desde 2017, quando o grupo brasiliense Phonopop lançou o single "A Grande Depressão", o compositor e cantor Fernando Brasil volta ao cenário de distopia e terra arrasada que varreu o país a partir da era Temer - e aprofundado em 2019, com a eleição de Bolsonaro.

Desta vez, Fernando mergulha em aventura solo. Escrita por ele em janeiro de 2019, dias após a posse de Bolsonaro, "Marte Ataca!" carrega, como "A Grande Depressão", flashes de um sonho lúcido que confunde-se com o véu de demência coletiva que cobriu o Brasil. Mas o autor, também entorpecido, não oferece caminhos ou soluções, apenas reage às absurdas imagens que consegue captar, como um paciente acamado em um manicômio. A música parece adequar-se ao quadro de pandemia e desinformação que impera no país.

Assim, as impressões de Fernando para a criação de "A Grande Depressão", em 2017, parecem soar estranhamente mais atuais: “a letra nasceu mais de um estado de estupefação, de uma terrível sensação de deslocamento, como se estivéssemos todos dopados, flutuando em um limbo, do lado errado da história e do progresso”, relatou o compositor em 2017. “Contemplamos o limiar do precipício, é um sonho ruim que não termina nunca”.

Corta para 2020. As consequências de um perigoso jogo de ruptura do Estado Democrático de Direito chegaram até mesmo para os que insuflaram o ódio e a mentira como argumento para “um mundo melhor”. "'Marte Ataca!' retrata um país engolido pela própria boçalidade e pelo desprezo ao próximo”, teoriza Fernando. "Os versos são simples e esparsos ao mesmo tempo, talvez porque não seja preciso dizer muito para expressar a tragédia que virou o Brasil”.

O vídeo da canção repete a parceria feita com a documentarista Erica de Sousa em "A Grande Depressão". Ela explica que utilizou cenas do filme "Metrópolis”, manipuladas na montagem, como linha principal da narrativa, que aborda a luta de classes dos anos 20 sob uma perspectiva futurista. "O roteiro foi escrito em 1927 por Von Harbou e Fritz Lang, projetando o ano de 2026 numa época em que a segunda onda da revolução industrial já dava sinais de que haveria consequências sérias para a humanidade. Atemporal. Coincidência?", pergunta a documentarista.

"Em "Marte Ataca!”, brinco com imagens para mostrar o que está embaixo do nosso nariz: acreditamos em teorias conspiratórias como as de invasões extraterrestres - Joe Biden seria um reptiliano? - para justificar nossas falhas enquanto humanidade. Quem realmente está nos atacando?", ela indaga.

Além de “Metrópolis”, a montagem também apresenta imagens históricas que entrelaçam o antes e o agora. Temos como imagens a Epidemia da Primeira Guerra Mundial; o acidente Césio 137 em Goiânia; o Brasil na Segunda Guerra Mundial; os incêndios do Pantanal e da Amazônia. Além disso, há passagens de outros filmes, como o documentário “Praça da Sé”, de Nilce Tranjan; “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock; “Viagem ao Planeta das Mulheres Pré-históricas” , de Peter Bogdanovich; e “O Grande Ditador”, de Charles Chaplin, além da famosa montagem “The Atomic Café”; e algumas caricaturas clássicas de Walt Disney.

Musicalmente, "Marte Ataca!" é uma mini rapsódia pop, marcada por suítes e fragmentos de canções que contam uma história de distopia e destruição de valores. Agregando atmosferas antagônicas de tons fúnebres e ruídos eletrônicos ao peso sônico de guitarras distorcidas e melodias pop, a canção nos carrega por uma viagem em um país apocalíptico.

"Não importa a criação da terra plana/ não há talvez, só impossível", anuncia o cantor e compositor Fernando Brasil, para logo descrever um cenário de pós-guerra: "urubus passeiam sobre resquícios de homens de bem/ Paletós submersos na Capital". Ouça Marte Ataca!, uma canção pungente sobre estes tempos sombrios. 
 






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