A invenção do heavy metal e suas várias versões



16 Fevereiro 2019

por Fernando Rosa

O ano de 1969, mais exatamente 12 de janeiro de 1969, poderia ser conhecido como o “dia da invenção do heavy metal”. Nesta data, foi lançado o primeiro disco dos ingleses Led Zeppelin, que ficou conhecido com o “Led Zeppelin I”. Isso só não é uma verdade absoluta da história do rock porque nesse universo paralelo tudo é relativo. Ainda mais se tratando de um disco do grupo de Page & Plant, conhecido por apropriar-se de originais do folk e do blues sem maiores constrangimentos, como fizeram com “Dazed and Confused”, música de autoria do cantor e compositor americano Jack Holmes, presente no primeiro disco deles.

A história da construção da sonoridade do Led Zeppelin, na verdade, é um rosário de situações discutíveis e mal explicadas, por mais que isso irrite os fãs, ou não faça a menor diferença atualmente. Reza a lenda, por exemplo, que o “Led Zeppelin I” foi inspirado, digamos assim, em “Truth”, do Jeff Beck Group – Jeff Beck, Rod Stewart, Ron Wood & Ian McLagan, lançado um ano antes. Ouvindo “You Shook Me”, presente nos dois discos, não é muito difícil aceitar a tese de que Beck foi mais uma “fonte de inspiração” da dupla Page & Plant. É verdade que havia antecedentes, especialmente gravações do The Who, Jimi Hendrix Experience e Cream, mas a fórmula disputada por Beck & Page estava em outra dimensão.

Há, no entanto, outra vertente do questionamento da “invenção” do rock pesado, que advoga a primazia para a banda Blue Cheer e seu disco “Vincebus Eruptum”, lançado em 1968. O disco, a bem da verdade, é mais cru e pesado do que “Truth” e “Led Zeppelin I”, mas carecia do charme de um e de outro, coisa que os ingleses souberam dar às suas criações. Blue Cheer, vinha pela linha de cruzamento do sixtie-garage-punk com climas a la Hendrix, no que hoje poderia ser considerado uma espécie de pré-stoner. Mas, o diferencial da época, o que fazia a média das cabeças, tanto do público quanto da mídia, era a aproximação com o blues, no que Page & Plant & Beck tinham escola.

Por outro lado, nada é mais pesado, agressivo e vanguardista em se falando da pré-história do metal do que a versão dos americanos The Sonics para “Louie Louie”, um clássico dos anos sessenta. Além da pegada da bateria, das guitarras altas, do vocal berrado, o “riff”-solo quase ao final da música é a coisa mais brutal e estranha daqueles anos de “beatlemania”. Outros artistas contribuíram de maneira episódica para o desenvolvimento do gênero, como o guitarrista Link Wray, ou a destoante geração de Detroit, com MC5 à frente – sem falar em “Helter Skelter”. O próprio Jeff Beck, à frente dos Yardbirds, com o disco “Roger The Engineer”, lançado em 1966, havia apontado naquela direção sonora.

Mas, justiça seja feita, Page & Plant desenvolveram uma linguagem especial que desembocou na sonoridade do Led Zeppelin e no que acabou sendo chamado, naqueles tempos, de hard-rock. Page, com os The New Yardbirds, que comandou entre 1967 e 1968, depois que Eric Clapton e o próprio Jeff Beck abandonaram os Yardbirds. Em show de 30 de março de 1968, por exemplo, Page já apresentava ao público de Nova York sua “novidade” em canções como a própria “Dazed and Confused” e versões para clássicos dos Yardbirds em versões mais agressivas e pesadas. Plant, por sua vez, gravou algumas poucas canções (três conhecidas, pelo menos) com a banda Band of Joy, em 1967, mas que, ao final das contas, é o que mais se aproximou da futura identidade sonora do Led Zeppelin.

Discografia de peso

The Sonics - The Sonics Boom
The Yardbirds – Roger The Engineer
Blue Cheer – Vincebus Eruptum
The New Yardbirds – Live at The Anderson Theatre (1968)
MC5 – Kick Out The Jams
Jeff Beck Group – Truth & Beck Ola
Led Zeppelin – Led Zeppelin 1
Black Sabath – Paranoid
The Groundhogs – Live at Leeds '71
Deep Purple – Machine Head
The Who – Who's Next
AC/DC – High Voltage
 

(na foto: Blue Cheer).


 






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