Paz, amor e baionetas no sonho hippie



27 Outubro 2018

por Fernando Rosa

“Houve uma vez um “Verão do Amor”. Então, uma nova cultura veio à luz, em meio a alucinação vertiginosa da anterior”. Assim Naomi Sunshine abria um texto, na edição #21 do jornal Rolling Stone, de 1972, falando de Haight-Ashbury, em San Francisco, Califórnia (EUA), espécie de “Terra Prometida” das comunidades hippies mundiais. De fato, o ano de 1967, com seu festival Monterey Pop e a explosão da música psicodélica, levou muita gente a buscar espaços alternativos à sociedade estabelecida.

A celebração daquele “sonho” veio dois anos depois, com outro festival, o de Woodstock que, por três dias, transformou-se na maior comunidade planetária, espalhando o espírito do “drop out” (cair fora) para o resto do planeta. As tribos, então, começaram a se formar em todos os lugares do mundo, reunindo jovens descontentes com o modo de vida da sociedade de consumo. Algumas delas apenas voltadas para a subsistência de seus membros, muitas, especialmente nos Estados Unidos, dedicadas a organização da resistência política contra a Guerra do Vietnã e, ainda, outras, como a argentina La Confradia de La Flor Solar, dedicada a produção musical.

No Brasil, a experiência de viver em comunidades também afastou muitos jovens, pelo menos por algum tempo, dos planos familiares de um futuro seguro, do diploma universitário e de uma carreira profissional “normal”. Mas, foi entre os músicos que a busca de levar uma vida diferente, longe da pressão e da rotina das grandes cidades, prosperou com mais sucesso. Entre 1970 e 1975, especialmente, diversos grupos ligados ao rock transformaram em realidade o sonho de uma “casa no campo”, como bem traduziu Zé Rodrix, em sua canção daquele período.

Talvez a “comunidade” mais famosa tenha sido a que reuniu Os Mutantes, na Serra da Cantareira, próximo a capital paulista, no início dos anos setenta. Por algum tempo, em uma casa com estrutura de som especialmente projetada pelo irmão César, os Mutantes Arnaldo Baptista, Sérgio Dias, Rita Lee, Liminha e Dinho, e mais uma penca de malucos, fixos e passageiros, viveram e produziram música em total liberdade. Alguns anos depois, Serginho, já sem Arnaldo Baptista e Rita Lee, repetiu a experiência com seus novos Mutantes, desta vez na serra carioca, mais exatamente em Petrópolis.

No Rio de Janeiro, outra comunidade também fez de sua convivência alternativa um centro de produção musical dos mais criativos daquele momento. Em Jacarepaguá, no povoado de Boca do Mato, entre rodadas de som, com direito a presença de João Gilberto, e eventuais batidas da polícia em busca de drogas ilegais, vivia a trupe dos Novos Baianos. A experiência resultou em uma das obras mais importantes do rock e da Música Popular Brasileiro, o LP “Acabou Chorare”, lançado em 1972.

“Como vivíamos em comunidade, fomos obrigados a promover um sistema de administração que conseguisse manter as pessoas juntas, sem que elas se sentissem agredidas por normas, proibições e ordens”, conta Luiz Galvão, letrista do grupo, no livro “Anos 70, Novos e Baianos”, biografia da banda. “Fazer com que o mínimo dessa metodologia que viesse a ser usada ficasse invisível e que fosse assimilada, sem traumas, por aquela juventude que buscava o exercício da liberdade, como respiração, e considerava careta a informação oficial do sistema”. “É claro que devemos ter errado muito, por radicalizarmos nossa posição nesse sentido contrário à correnteza das águas, mas, por outro lado, ganhamos em criatividade e comunicação”., lembra ainda Galvão, de certa forma identificando as relações, mais ou menos parecidas, estabelecidas nas comunidades nacionais.

Ainda no Rio de Janeiro, no início da década de setenta, um grupo de artistas, sob o nome de Equipe Mercado, instalara-se em uma enorme casa nos altos de Santa Teresa, logo transformada numa comunidade hippie. Ali, segundo o historiador Nélio Rodrigues, “era onde a Equipe formulava seu elixir psicodélico, o ingrediente mágico e surreal de suas músicas. Com a Equipe, a juventude compartilhou as aventuras de “Mary K No Esgoto das Maravilhas”; se emaranhou no “Poesonscópio de Mil Novecentos e Quarenta e Quinze”; visitou “Marina Belair”; e fez macrobiótica nos “Campos de Arroz”, todas músicas do grupo. “A Equipe Mercado, estava adiante do tempo, tão adiante, que quando desapareceu, dois anos e meio depois, no futuro, ninguém ainda havia chegado lá prá notar”, lembra Nélio.

Em Recife, o mesmo espírito organizou e mobilizou um conjunto de músicos, entre eles Zé Ramalho, Lula Côrtes, Lailson e as bandas Ave Sangria e Flaviola e o Bando do Sol. Nessa época, aconteceu a primeira manifestação coletiva do movimento, a Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém, também uma espécie de “Woodstock” local, com dois dias de música com entrada franca na cidade-teatro de Nova Jerusalém (onde anualmente é realizado o mega-espetáculo da Paixão de Cristo). “Era a música pela música, a expressão criativa pelo prazer de criar e apresentar uma proposta original”, relembra o coordenador do evento, o desenhista, cartunista e músico Lailson. Em produção quase artesanal, gravadas no selo Rozenblit, o grupo registrou suas experiências em obras raras e clássicas, com destaque para o disco-coletivo “Paêbirú, o Caminho do Sol” e “Satwa”, ambos relançados no exterior.

Em meio a onda de “paz e amor”, um grupo de jovens músicos e cineastas de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, mergulhou fundo na produção do que se chamou na época de "o primeiro filme hippie brasileiro". Intitulado "Geração Bendita", o filme dirigido por Carlos Bini, e rodado na região, deixou registrado, além das imagens de uma época, uma trilha sonora tão surpreendente quanto rara. Talvez o único registro de como era a vida em uma comunidade, o filme retratava a vida de um grupo de jovens que vivia e produzia flores em um sítio na região. A trilha sonora, batizada com o mesmo nome do filme, foi gravada pelo grupo Spectrum, formado por ex-membros da banda 2000 Volts e atores/músicos do filme. Uma das obras de psicodelia mais procuradas por colecionadores de todo o mundo, o álbum foi relançado na Europa em versão vinil 180 gramas e em digital.

Além do som, da comida natural, de outros ingredientes alternativos, alguns livros que, de alguma maneira, davam sustentação ideológica ao movimento, também faziam parte da vida de boa parte dos moradores dessas comunidades. Um deles, e talvez o principal, era o livro “A Contracultura”, de Teodore Roszak, publicado no Brasil pela Editora Vozes. Nele, Roszak afirmava que “quase tudo que está sendo feito de novo hoje em dia, seja em política, arte ou relações sociais (amor, família, vida comunitária) é criação dos jovens – profundamente alienados da geração de seus pais ...”. “On The Road”, de Jack Kerouac, apesar de ainda inédito em edição nacional, e disponível em inglês ou espanhol, era outra leitura obrigatória, especialmente dos “estradeiros”.

A “comunidade” mais avançada e futurística da época, no entanto, foi uma sociedade organizada de forma “virtual”, que ganhou o nome de “Sociedade Alternativa”, e deu muita incomodação para o seu principal responsável. Inventada por Raul Seixas, a sua “comunidade” provocou a ira da ditadura militar que suspeitou tratar-se de uma organização subversiva e, por conta disso, prendeu e despachou Raulzito para os Estados Unidos. Uma ironia organizacional em tempos pré-Orkut, a sociedade alternativa de Raul Seixas elevava o “drop out” das comunidades hippies para um terreno ainda radical, atemporal e metafísico, o da espiritualidade e da magia.



Na foto, Novos Baianos.






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