A história do rock, primeira ascensão e queda



09 Maio 2020

por Fernando Rosa

Em 10 de janeiro de 1956, Elvis Presley gravou o single "Heartbreak Hotel" e "I Want You, I Need You" para a RCA Victor. Foi o primeiro dos cinco mega hits nacionais que ele lançou naquele ano por sua nova gravadora. Na sua onda, surgiram Jerry Lee Lewis, Buddy Holly, Gene Vincent, Eddie Cochran e milhares de outros ídolos.

Na primeira fase, entre 1953 e 1955, tinha prevalecido o rock and roll de origem negra de Chuck Berry, Little Richard, Fats Domino e, mesmo Bill Halley. Com o branquelo de Memphis e sua explosiva mistura de blues e country, o rock experimentava o seu ‘big bang’, em todos os sentidos. O primeiro rei do rock e seus parceiros chegavam ao grande público no momento certo e, agora, apresentados, especialmente Elvis, ao gosto da nova clientela.

Mas, assim como o fenômeno físico, o rock and roll em sua forma original durou o tempo de sua explosão, produzindo mudanças sócio-culturais profundas e duradouras e provocando a ira dos conservadores. Um tempo de exatos 26 meses que se passaram entre o primeiro single de Elvis na RCA e o seu alistamento no Exército – ele serviu de motorista na base americana na Alemanha, com direito a farda e cabelo "reco".

Ou um período um pouco mais longo, se considerarmos o dia em que o avião Breechcraft Bonanza de quatro lugares caiu, depois de decolar do aeroporto de Mason City (Iowa, nos Estados Unidos), em 3 de fevereiro de 1958, matando Buddy Holly, Richie Valens e Big Bopper. Um episódio que, para a mitologia da música pop, por conta da música "American Pie", com Don McLean, ficou conhecido como “o dia em que o rock morreu”.

Nesse período, Elvis Presley confirmou sua supremacia, não chegando a ser maior do que Jesus Cristo - com diria John Lennon mais tarde em relação aos Beatles - mas ameaçando seriamente o prestigio do Tio Sam. Em 1956, ele apareceu 12 vezes em rede nacional de televisão, mesmo que filmado apenas da cintura para cima – a censura se devia a sua dança considerada exageradamente sensual.

Elvis vinha da Sun Records, onde lançara o single "That’s All Right" e "Blue Moon Of Kentucky", espécie de marco zero do rock. Mais esperta do que a Atlantic e a Capitol, a RCA Victor pagou 35 mil dólares pelo seu passe, equivalente ao último ano de contrato com a Sun Records.

Em sua nova gravadora, ele teve o que Sam Philips e sua pequena Sun Records não podia lhe dar. Decidida a levar Elvis para um mundo maior que o universo adolescente do rock and roll, a RCA apostou em uma superprodução, comandada por Chet Atkins, que incluía um time de músicos de estúdio, onde se destacavam o grupo vocal The Jordanaires e o pianista Floyd Cramer.

Foi um período de ouro para a indústria do disco, do cinema e também para as rádios e tudo o mais que se desenvolveu em torno do novo gênero musical. Com o rock and roll, a juventude passou a existir não apenas socialmente, mas também como um novo mercado de consumo, ávida por novidades.

Pela primeira na história da sociedade americana, os jovens de classe média não precisavam trabalhar para ajudar os pais e, mais, a instituição da “mesada” ganhava força. A juventude americana, inicialmente, e, em seguida a de todo o mundo, passava a ter não apenas sua própria música, mas também novas maneiras de se comunicar, se vestir e se alimentar. Os novos hábitos podiam ser perigosos, mas faziam tilintar a máquina registradora das gravadoras, magazines e 'fast foods'.

Esta mudança, no entanto, talvez tenha sido mais ameaçadora e radical no terreno da produção musical nos Estados Unidos. A entrada dos jovens roqueiros em cena desmontou a tradicional linha de produção musical até então estabelecida, na base de cantores de destaque e compositores e músicos de estúdio contratados.

Com o rock and roll, exceto Elvis Presley, os “cantores” e intérpretes eram, em sua maioria, também compositores de suas músicas e tinhas suas próprias bandas. Isso dava os jovens músicos controle total sobre suas obras e carreiras, ao mesmo tempo em que esvaziava o poder das grandes gravadoras na definição do mercado. Além do mais, a maioria dos novos roqueiros eram negros, excêntricos, libidinosos ou rebeldes, o que também contrariava os padrões artísticos vigentes.

Não demorou muito para o rock and roll em sua forma mais original e radical entrar em rota de colisão com o falso moralismo político, religioso e sexual. Com o macarthismo, naquele momento, em seu ápice de histeria persecutória, o rock and roll não seria tratado de forma diferente do que o foram a literatura, o cinema e, também, os quadrinhos, embora isso ainda não faça parte da história oficial.

Mais do que essas duas formas de expressão cultural, o rock and roll, embora sem um discurso político direto, subvertia costumes tradicionais e, principalmente, abria as portas da insubmissão, da rebeldia. Era difícil acusar os jovens roqueiros de comunistas, como se fazia com jornalistas, escritores, cineastas e atores, mas se podia atacá-los em outras frentes, especialmente no terreno moral e sexual.

Uma situação tão esdrúxula que nem os quadrinhos escaparam, provavelmente também pela sua capacidade de comunicação com a juventude, similar a nova linguagem direta do nascente rock and roll. Autor do estudo Seduction of the Innocent, o psiquiatra Fredric Wertham deu o tom da paranóia que levou a criação de um manual de censura aos quadrinhos, batizado de Código de Ética, voltado contra as revistas e seus autores, acusados de promoverem a perversão da juventude americana.

Nada fugiu à censura, desde as histórias de terror, até as de ficção científica, suspense e, mesmo, de super heróis clássicos. Nesse contexto, entre ataques e contra-ataques, populariza-se a revista Mad, criada em 1952 por Harvey Kurtzmann, que introduz com sucesso em suas páginas o humor e, especialmente, a contestação, por meio da sátira aos valores tradicionais e, particularmente, ao Código e seus autores.

Em resumo, naquele momento, era preciso preservar o mercado e ampliar seus gordos lucros, mas isso exigia “limpar” o rock and roll, vestí-lo para a sala de estar da classe média americana. Nesse período, então, a pressão do governo, das gravadoras e das lideranças políticas e religiosas se abateu com todo seu poder sobre os jovens músicos.

No final dos anos cinqüenta, quem não havia sucumbido frente a ação direta dessas instituições, acabou vítima de trágicos episódios, também resultado da intensidade daquele momento. Os verdadeiros e revolucionários artistas tinham sido afastados, cooptados, marginalizados, presos ou estavam mortos. Em seu lugar, uma nova safra de cantores sarados, como Paul Anka, Neil Sedaka e tantos outros, ganhava as telas das televisões.

O primeiro a pagar o preço da transgressão foi o próprio Elvis Presley, já submetido a lógica empresarial de Tom Parker, um ex-vendedor ambulante de circo e empresário de artistas de country music. Mesmo correndo o risco do afastamento da cena musical, o esperto Parker sacou que a imagem de bom moço e, mais do que isso, de “patriota”, poderia ser a porta de entrada de Elvis para o mundo adulto.

Não deu outra, e, na onda da expansão imperial dos Estados Unidos, a imagem do Elvis de farda, estabeleceu-se em todo porta-retrato de meninas adolescentes espalhadas pelo mundo inteiro. Fora do quartel e ainda mais rico, Elvis trocou definitivamente a agressividade original por melosas baladas como "It’s Now or Never" e "Are You Lonesome Tonight?", que o consagraram definitivamente e fixaram sua imagem mais popular.

Herói da primeira fase do rock and roll, do negro Chuck Berry foi cobrado um preço mais alto, que resultou em sua prisão. Berry foi acusado de violar a Lei Mann, que proibia o transporte de menores entre os Estados americanos, por ter trazido uma mulher de outro estado para o seu clube. Segundo o músico, a mulher tinha 21 anos, mas a Lei sustentou sua menoridade e, além disso, agregou a acusação a prática de prostituição.

O resultado desse processo, que se arrastou por mais de dois anos, foi que o autor de Johnny B. Goode e dezenas de outros clássicos do rock acabou condenado e preso, em 1962. Nesse meio tempo, a sua carreira já tinha sido destruída por conta do escândalo e da repercussão na mídia e no meio musical.

Outra vítima da pressão da mídia foi Jerry Lee Lewis, espécie de sucessor de Elvis Presley na Sun Records de Sam Phillips. Ao casar secretamente com sua prima Myra Brown, de 14 anos, Lewis deu aos conservadores o argumento que faltava para sustentar o ataque aos jovens roqueiros. Em manchetes escandalosas, os jornais britânicos e americanos trataram o caso como abuso de menores.

Pesava contra ele o fato de ser mais velho e já ter um histórico de três casamentos, sendo que o último ainda pendente do divórcio legal. Talvez o mais rebelde dos roqueiros brancos, The Killer, como ficou conhecido, viu sua carreira arruinar-se da noite para o dia. Em junho de 1958, antes de começar a vagar pelos bares mais obscuros dos Estados Unidos, ele emplacou seu último sucesso, a música "High School Confidential".

Também já fora de combate em 1958, Buddy Holly, pode ser considerado a primeira e mais importante vítima da superexposição a que foram submetidos os jovens roqueiros na gênese do rock and roll. Do interesse dos artistas, evidentemente, mas principalmente dos empresários famintos pelo lucro imediato, as turnês reunindo vários grupos e intérpretes cortavam o país e duravam meses, com shows praticamente diários.

É nesse contexto que o autor de "Peggy Sue", diante da possibilidade de perder um show, por conta de seu ônibus quebrado, decide correr o risco de embarcar em um avião, mesmo em condições adversas. A conseqüência da aposta foi a morte em trágico acidente provocado por um rigorosa nevasca, minutos após a decolagem. A curta carreira de cerca de dois anos estava encerrada e, com ela, para muita gente, também o rock and roll em sua forma mais criativa e juvenil.

Um ano antes, foi Little Richard que, diante da “visão” de um acidente aéreo abandonou a carreira, apegando-se a religião. Segundo conta a lenda, ele teria sonhado com um motor de avião pegando fogo, que interpretou como um sinal de Deus. Diante do aviso divino, Little Richard saiu de cena, deixando aliviados os moralistas incomodados com sua música excitante e suas agressivas apresentações ao vivo.

Negro, espalhafatoso e abusado em suas letras sexualmente incorretas, Little Richard talvez tenha sido a mais incomoda pedra no sapato do conservadorismo. No entanto, suas músicas, aliviados de seu caráter sexual, transformaram-se em grandes sucessos na versão dos novos artistas brancos.

Talvez ninguém mais do que o DJ Alan Freed personifique a pressão e a perseguição desenvolvida contra as pequenas rádios que alavancaram o rock and roll. Freed era branco, mas transformara-se no maior defensor e propagandista da música negra, no caso o rock and roll da primeira fase do gênero. Perspicaz, ele organizou grandes festas coletivas, as The Moondog House Rock and Roll Party, onde reunia brancos e negros, no palco e na platéia.

Em tempos de racismo exacerbado, e de início da luta pelos direitos civis, a postura de Freed foi um desafio tão importante quanto Jimi Hendrix em Woodstock executando o hino americano sobreposto por sons da guerra contra o Vietnã. Freed foi o principal alvo o conhecido Escândalo Payolla, acusado de receber jabá para tocar rock and roll, o que o levou a miséria e a morte prematura, em 1965.

A década de sessenta estava começando e o mundo do rock and roll clássico encontrava-se aparentemente domesticado. Os primeiros heróis estavam, em sua maioria, fora de cena, afastados de seus públicos.

Mas quem pensou que, com isso, o rock estava sob controle, levou um certo tempo a compreender a nova explosão dos Beatles, Rolling Stones e outros grupos ingleses. E mais do que isso, não deve ter entendido a presença em seus primeiros discos de tantas músicas daqueles jovens banidos há tão pouco tempo.

Os primeiros discos dos Beatles e dos Rolling Stones, particularmente, traziam clássicos dos seus ídolos confessos, atraindo novamente a atenção para os seus nomes. Aos poucos, a partir de meados dos anos sessenta, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Little Richard e muitos outros retornaram ao disco e aos palcos, afirmando definitivamente a sua importância para a história do rock.













 






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