Belchior / Alucinação



12 Novembro 2018

por Fernando Rosa

"Eu sou como você, que me ouve agora", cantava Belchior, em 1976. Talvez nada fosse mais importante do que não sentir-se só naquele momento. A ditadura afirmara-se pela perseguição, pela tortura, pelo assassinato, pela imposição do medo. Eram tempos estranhos, onde alienar-se também podia ser uma solução. Mas não para alguns artistas e jovens "como eles". Nem tudo era "divino e maravilhoso", como dizia "uma canção do rádio, de um antigo compositor baiano".

Entre o "sonho (acabou) hippie" pós-Woodstock e a dura luta contra a ditadura, havia Belchior e seu disco "Alucinação", lançado naquele ano. Uma obra cheia de "toques", como se falava na época, existenciais e políticos que falavam às mentes e corações de jovens e adultos. Poesia moderna, com referências culturais espertas, que alertava para "o perigo na esquina", mas que acenava com a chegada de uma "nova estação". "Eu quero é que esse canto torto corte a carne de vocês". (Cadê alguém para cantar esses tempos em que vivemos?)

Alguns títulos das músicas são suficientes para explicar a importância do disco: "Apenas um rapaz latino-americano" (sempre quis vê-lo no palco do festival El Mapa de Todos), "Velha roupa colorida", "Como nosso pais", "Alucinação", "A palo seco" e "Fotografia em 3x4". Se alguém daquela geração pode reivindicar o papel de "porta-voz" é Belchior com esse disco, ainda vivo e delirante em versos como em "Como o diabo gosta': "nunca fazer o que o mestre mandar, sempre desobedecer, nunca reverenciar".

Outros discos foram importantes nos anos setenta, e são muitos, mas "Alucinação" merece estar entre os primeiros. Outro dia, comprei o disco em versão cd (uma reedição) - pela décima vez - num desses lojões por R$ 5,90 e não parei mais de ouvir. Incrível com segue atual em tudo, nas letras, nos arranjos, na concepção, no sentimento que ainda desperta em sua convocação para o ver-se socialmente coletivo e sempre jovem. "Que fiquem sempre jovens, e tenham as mãos limpas, e aprendam o delírio com coisas reais". "O novo sempre vem". Belchior vive! 






POSTADO EM: /Resenha